terça-feira, 1 de setembro de 2009

http://www.cahiers-antispecistes.org/spip.php?article338

CA1 (outubro 1991)

Os Peixes: uma sensibilidade fora do alcance do pescador

Joan Dunayer

Traduzido do inglês por David Olivier
Tradução: Juliana Marques; revisão: Débora Vieira e Eliana Moser

Este artigo apareceu na revista americana Animal's Agenda (número de julho-agosto 1991), que deu-nos amavelmente a autorização para esta tradução.

Para certos nomes de peixes, não foi encontrado o equivalente em francês. Eles são, segundo o caso, deixados em inglês, ou traduzidos literalmente com o nome em inglês entre aspas.

Blackie, peixe vermelho da variedade kinguio , nadava com muita dificuldade devido a uma grave deformação. Big Red, peixe vermelho maior, notou sua angústia. Desde o instante em que Blackie foi colocado em seu aquário na loja de animais, Big Red começou a notá-lo. « Big Red supervisiona sem descanso seu amigo doente, levanta-o suavemente nas suas costas grandes e passeia com ele pelo aquário », conta um jornal sul-africano em 1985. Cada vez que a comida é colocada na superfície da água, Big Red carrega Blackie para que eles possam comer juntos. Faz um ano que Big Red demonstra sua « compaixão », segundo o proprietário da loja.

Por outro lado, os seres humanos demonstram ter bem menos compaixão para com os peixes. Trágica e ironicamente, os humanos não reconhecem a sensibilidade dos peixes, a qual, sob várias perspectivas, pode chegar a ultrapassar a dos humanos.

O mundo perceptível dos peixes

As orelhas internas dos peixes percebem todo o mundo aquático que os humanos não podem perceber sem ajuda de hidrofones. Como não possuem cordas vocais, os peixes « falam« comprimindo suas vesículas nadadoras, fazendo ranger seus dentes faríngeos. Ao esfregarem suas espinhas umas nas outras, eles produzem sons que podem variar de zumbidos e de barulhos a ganidos e soluços. Segundo descobertas de especialistas de biologia marinha, a « vocalização » dos peixes comunica estados como paquerar, dar sinal de alarme ou mostrar submissão, ao mesmo tempo em que comunicam a espécie, o tamanho e a identidade individual do « locutor » . O satinfin shiner macho, por exemplo, ronrona quando faz a corte e emite batidas surdas quando defende seu território. A linha lateral, órgão sensitivo que a maioria dos peixes possui de cada lado do corpo, forma uma série de filamentos sensíveis alinhados da cabeça ao rabo, detectando também as vibrações. Enquanto o peixe nada, este órgão sinaliza para o peixe os objetos próximos graças às vibrações que envia, autorizando assim a navegação e a localização precisa das presas no escuro.

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Morfologia de um peixe típico (téléolstéen). Segundo J. Nichools, no Guia da Fauna e da Flora litorâneas dos mares de Europa, Ed. Delachaux & Niestlé, Paris, 1979.

A sensibilidade dos peixes à luz é maior que a nossa. Muitos peixes das profundezas vêem na penumbra onde um gato não vê nada. As espécies de água pouco profundas têm uma visão em dois níveis ao nascer do sol; os cones da retina, sensíveis à cor, avançam e os bastonetes, sensíveis à luz fraca, retraem-se em profundidade; enquanto, ao por do sol, o processo se inverte. Durante a transição, numerosos peixes se beneficiam da percepção da luz ultravioleta, que é suficiente para lhes indicar a silhueta dos insetos na superfície da água. Uma luz viva repentina, vinda, por exemplo, de uma lanterna, surpreende e desorienta um peixe que tem visão adaptada para a noite. Isso pode provocar sua fuga, sua imobilidade ou mesmo sua submersão. A luz pode também destruir os bastonetes.

Na maioria dos peixes, as papilas gustativas se localizam não somente na boca e na garganta, mas também nos lábios e no focinho. Muitas das espécies que se alimentam no fundo têm receptores gustativos também na extensão das suas nadadeiras pélvicas ou nas barbatanas de seus queixos, que servem como línguas externas. Os peixes-gatos podem provar o alimento a certa distância graças a milhares de receptores gustativos.

Que sensibilidade os peixes têm ao odor? Os salmões podem percorrer milhares de quilômetros ao longo de suas migrações e, muitos anos mais tarde, reconhecer o odor do curso da água de origem. As enguias americanas detectam o álcool a uma concentração de uma fração de bilhão de gota em 90 m3 de água (o conteúdo de uma grande piscina). Através deste único odor, certos peixes podem determinar a espécie, o gênero, a receptividade sexual, ou a identidade individual de outro peixe.

Os peixes reagem fortemente ao fato de serem tocados. No momento de paquerar, eles freqüentemente se esfregam de maneira delicada uns nos outros. Os registros efetuados pelo Narragansett Marine Laboratory revelaram que o robin dos mares [sea robin] ronrona quando é acariciado. Ricardo Mandojana, fotógrafo submarino, ganha a amizade de um peixe-judeu inicialmente desconfiado coçando levemente a sua face. Com o passar dos meses, o peixe, aparentemente impaciente por ser acariciado, vem ao encontro do mergulhador durante seus passeios.

Numerosas espécies de peixes têm centenas de receptores elétricos na pele, o que lhes permite detectar a forma do campo que eles mesmos produzem. Um objeto menos condutor que a água, como uma rocha, forma uma sombra no campo; um objeto mais condutor, como uma presa, aparece como um ponto brilhante. A imagem elétrica que o peixe percebe indica o local, o tamanho, a velocidade e a direção do movimento do objeto. Um peixe elétrico pode também « ler« a carga produzida por um outro, a qual depende do tamanho, da espécie, da identidade individual e das intenções (que podem ser, por exemplo, o desafio ou a procura de um parceiro sexual) daquele que o produz. O peixe-faca listado macho afirma seu domínio por meio de uma série de impulsos rápidos; seu rival potencial se submete parando de « falar ».

Produzindo ou não o mesmo sinal elétrico, numerosos peixes são sensíveis ao campo elétrico que produz todo ser vivo e podem, assim, detectar uma presa escondida na areia ou no cascalho. Theodore Bullock, especialista dos sistemas nervosos, notou que certos tubarões podem perceber um campo elétrico equivalente ao que produz uma pilha de 1,5V a 1500 km.

A capacidade que eles têm de sofrer

De acordo com outras sensibilidades, não há duvida sobre a capacidade dos peixes de sentir stress e dor. Quando são perseguidos, capturados, ou ameaçados de todas as maneiras, eles reagem como os humanos face ao stress pelo aumento da sua freqüência cardíaca, do seu ritmo respiratório e por uma descarga hormonal de adrenalina. O prolongamento de condições adversas, como grande confusão ou a poluição, ameaça lhes fazer sofrer de deficiência imunitária e de lesões orgânicas internas. Tanto pela bioquímica como pela estrutura, seu sistema nervoso central se parece intimamente com o nosso. Nos vertebrados, as terminações nervosas livres registram a dor; os peixes a possuem em abundância. Seu sistema nervoso produz também as encefalinas e as endorfinas, substâncias análogas aos opiáceos que possuem um papel contra a dor nos humanos. Quando estão machucados, os peixes se contorcem, ofegam, e exibem outros sinais de dor.

Fica lógico que os peixes sentem medo, e este tem uma função na aquisição do comportamento de fuga. Se um vairão for atacado uma vez por um brochet, ou se vir outro ser atacado, o odor de um brochet é suficiente para fazê-lo fugir. Os peixes que foram atacados por jovens brochets fogem assim que escutam o rangido de dentes desses últimos. O pesquisador R.O. Anderson mostrou que os Percas de boca grande aprendem a evitar rapidamente os anzóis simplesmente ao verem outros serem capturados. Centenas, talvez milhares de experiências foram feitas durante as quais os peixes foram levados a cumprir tarefas dentro do objetivo de evitar choques elétricos.

Numerosos cientistas reconheceram ter induzido os peixes ao medo. Entre as « observações do comportamento motivado pelo medo nos peixes vermelhos » feitos pelo psiquiatra Quentin Regestein, encontrou-se: « Um peixe assustado pode se enlaçar avançando ou fugir ou se agitar no mesmo lugar, ou ficar simplesmente mole se ele não suporta a situação ».

Os peixes gritam tanto de dor quanto de medo. Segundo Michael Fine, biólogo marinho, a maior parte dos peixes que produz sons « vocalizam » quando tocados, quando pegos, ou quando perseguidos. Numa série de experiências, William Tavolga fez murmurar peixes-sapos infligindo-lhes choques elétricos. Começaram também a murmurar logo que viam eletrodos.

Os peixes « animais de estimação »

Mesmo quando não há a crueldade da experimentação animal, a captura dos peixes negligencia as suas necessidades mais fundamentais. Nervosos e frágeis, eles estão mal adaptados a uma vida reclusa em aquário. Todavia, só nos Estados Unidos, centenas de milhões de peixes estão aprisionados.

Os peixes são mais sensíveis à temperatura do que qualquer outro animal de sangue quente. Uma variação brusca de apenas alguns graus pode matar um peixe vermelho. No entanto, alguns são colocados em pequenos reservatórios onde a temperatura pode variar rapidamente.

Os peixes de aquário não possuem nenhuma possibilidade de escapar das substancias tóxicas que penetram em sua água. Numerosos poluentes domésticos podem lhes prejudicar, entre eles a fumaça do cigarro, os vapores de pintura e as gotas de vaporizadores. Dentro de um bocal ou reservatório, o amoníaco que eles mesmos excretam pode se acumular e chegar a um nível tóxico. O próprio cloro em pequena quantidade pode, como o amoníaco, induzir a dificuldades respiratórias e espasmos nervosos. O nível de cloro da água da torneira pode facilmente ser fatal.

Os peixes de aquário são bombardeados em permanência por cenas e barulhos dos humanos. O simples fato de acender a luz num quarto escuro pode assustá-los ao ponto de lançarem-se contra o vidro, e se matarem. As vibrações vindas da televisão, do radio, ou de uma porta que bate podem também os assustar e machucar. Em You and Your Aquarium, Dick Mills previne que « qualquer choque ou batida no vidro do aquário pode facilmente chocar ou estressar os peixes ». Um pesquisador, H.H.Reichenbach- Klinke, descobriu que peixes freqüentemente expostos a musica forte desenvolvem lesões mortais do fígado.

Os peixes de aquário são deixados à mercê da agressão artificial, mas são privados da natural. Eles não têm necessidade de atividades como a procura de alimento através da vida diversificada dos recifes de corais. Ao contrário, eles percorrem as mesmas dezenas e centenas de litros, e aceitam passivamente dia após dia a mesma comida comprada pronta. Segundo Mills, os peixes de aquário sofrem seguidamente de tédio.

Os peixes vermelhos e outros peixes sociais necessitam da companhia de membros de sua espécie, sem a qual, comenta ainda Mills, « podem perecer ». Quando perdem um companheiro, observamos nos peixes sociais os sinais de depressão, tal como letargia, palidez ou nadadeiras moles. O zoólogo George Romanes comenta em Animal Intelligence o seguinte incidente: quando um proprietário de aquário se desfez de um dos seus dois ruff, o que ficou parou de comer durante três semanas até o dia em que trouxeram seu companheiro.

O mal que os aquarófilos infligem aos peixes ultrapassa amplamente o aquário. Inúmeros são os peixes que morrem antes de chegarem ao varejista, durante o transporte desde o local de captura, ou desde a « fazenda de peixes » (onde nascem atualmente 80% dos peixes ditos « ornamentais » dos Estados Unidos). Somente a captura mata ou machuca milhões. Eles são imobilizados com o auxilio de anestésicos, de dinamite ou de cianeto, depois capturados com a mão ou redes. William McLarney, biólogo de pesca, observou uma captura com bomba de cianeto:

Uma dúzia de peixes-esquilos vermelhos rapidamente foge em bando do seu habitat de coral a 8 metros de profundidade e se lança, sufocando e trepidando, até a superfície. Seu impulso os leva a até trinta centímetros acima da superfície, de onde caem com pequenos ruídos secos, e ao final bóiam, cansados, girando fracos em círculos. Sobre eles, um Mero de três libras tosse violentamente, as brânquias ardendo. Ele tenta nadar mas é derrubado, depois bóia sem ruído como uma bóia sinistra.

Nesse meio tempo, no fundo, peixes mais « comuns » para interessarem aos clientes « entram em convulsão ou escorregam sem movimento ».

A pesca comercial

A pesca comercial também dizima os peixes, matando milhares a cada ano. Em geral, para eles, a morte não é rápida nem indolor.

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Rede giratória e envolvente. A parte inferior do fio é fechada no meio de uma corda deslizante.

Na pesca de arrastão, o barco fecha, com uma rede, um círculo em torno de um cardume, depois iça, suspende o cardume e o joga dentro da salmoura líquida que é mantida a O grau Celsius. Aqueles que não morrem esmagados ou estrangulados são vitimas do choque térmico. Este método, empregado por pescadores que caçam os atuns de nadadeiras amarelas, provoca uma tempestade de protestos a favor dos golfinhos que nadam por baixo dos atuns e se enroscam nas redes com eles. Mas poucas vozes se elevam contra a morte dos próprios atuns. E os atuns são também animais sensíveis às vibrações, portanto é claro que eles também ficam aterrorizados e feridos pelos barcos motorizados e pelas explosões submarinas que levam os golfinhos a se agruparem em um lugar. A onda de pressão de uma detonação submarina pode romper a vesícula nadadora de um peixe.

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Pesca com rede em forma de cesto. Uma rede precede a borda inferior do fio e raspa o fundo do mar para desalojar os animais.

Na pesca com rede, um barco se movimenta carregando atrás dele, na água, uma enorme rede. Todos os peixes que entram são empurrados pelo movimento de tração em direção à sua extremidade que possui a forma de um saco rendado. Durante uma ou mesmo quatro horas, os peixes capturados são puxados e pressionados uns contra os outros, juntamente com outros fragmentos e seixos que a rede colhe do fundo. Em Distant Water: The fate of the North Atlantic Fisherman, William Warner fala de uma captura: « o atrito dos peixes uns contra os outros devido à agitação e a compressão prolongada da rede lhes enfraquece as escamas incisivas ». « A fricção, de fato, deixa-os em carne viva ».

A descompressão à qual são submetidos torna-se insuportável quando são forçados a subir depois de certa profundidade. A queda da pressão provoca uma dilatação do gás encapsulado em sua vesícula nadadora, que não pode ser compensada rapidamente pela absorção da circulação sanguínea. Em seguida, a pressão interna faz com que a vesícula nadadora arrebente, ou os olhos saiam da órbita, ou o esôfago e estomago saiam pela boca. « Muitos dentre eles têm buracos onde deveriam estar os olhos », comenta Warner numa de suas observações sobre um barco pesqueiro. Em outro momento, ele nota que, dentro da rede, há « uma grande espuma de bolhas... provindas de milhares de vesículas nadadoras rompidas »1 ».

Os peixes relativamente pequenos, tais com as solhas espinhosas, são comumente esparramados sobre a pilha de gelo; a maioria morre sufocada ou esmagada pelas camadas seguintes de outros peixes. Os peixes maiores tais como os hadoques ou bacalhaus têm suas vísceras arrancadas imediatamente. William MacLeish descreve o método de triagem que ele viu ser praticado: a equipe de pescadores esfacela os peixes com bastões afiados, « jogando de um lado os bacalhaus, de outro lado os hadoques, lá ainda os rabos-amarelos » [Yellowtail] . Em seguida, os peixes não desejados (« lixo »), que representam muitas vezes a maioria da captura, são jogados sobre a margem, muitas vezes com um tridente (ancinho).

Somente numa tarde, os pescadores podem jogar no mar até 60000 km de redes; dentro das águas profundas do Pacifico, usam-se sobretudo redes móveis, mas pode-se também usar redes amarradas dentro das águas costeiras. Trata-se geralmente de redes de plástico que possuem bóias em uma de suas pontas e pesos na outra ponta. Essas bóias balançam como cortinas na superfície, geralmente até uma profundidade de 10 m. Além de provocarem a morte não intencional de mais de um milhão de mamíferos, de tartarugas e aves a cada ano, estas redes infligem um sofrimento enorme aos peixes.

Eles não vêem as redes e nadam diretamente para elas. Se são muito grandes para atravessá-las, os peixes geralmente ficam com a cabeça presa numa das malhas. Eles tentam então recuar, mas a malha lhes prende pelos opérculos das brânquias ou pelas nadadeiras. Muitos destes peixes vão então morrer sufocados. Outros lutam desesperadamente nas malhas cortantes e seguidamente sangram e morrem vazios de seu sangue, quer consigam ou não se libertar. Muitos dos pescadores não retiram as redes todos os dias,e a morte pode levar dias. Em Sports Illustrated (16 de maio 1988), o jornalista Clive Gammom descreve os bacalhaus pegos depois de dois dias. Muitos dentre eles estavam « sem olhos, sem nadadeiras, sem escamas »; numerosos outros foram devorados pelas pulgas do mar. Os peixes imobilizados são uma presa sem defesa (os predadores que eles atraem ficam seguidamente presos também às redes). Quando uma rede é erguida, os peixes são extraídos com gancho.

Certos pescadores comerciais pegam ainda os peixes maiores e preciosos (os peixes-espadas, os atuns e tubarões) com arpão, ou com anzóis individualmente. Mas comumente eles os prendem por longas linhas flutuantes. Este método, igualmente empregado para os peixes menores, consiste em desenrolar uma grande quantidade de fio (até 50 km) contendo centenas ou milhares de anzóis munidos de iscas.

A pesca de lazer

Em torno de 40 milhões de habitantes dos Estados Unidos – 16% - maltratam os peixes por « esporte ». Muitos adeptos da pesca de lazer afirmam que as vitimas não sofrem. Todos os dados conhecidos indicam o contrário.

O pesquisador John Verheijen e seus colaboradores estudaram a reação das carpas ao anzol num fio. Assim que são presas, as carpas agitam a cabeça, cospem como se tentassem cuspir a comida, pulam pra frente e mergulham. Obtemos a mesma reação inicial administrando-lhes choques elétricos dentro da boca. Quando são presas e mantidas numa linha estendida durante o período de alguns minutos, elas cospem o gás de sua vesícula nadadora; assim que a linha é solta, elas entram na água. Fazem exatamente o mesmo quando submetidas a um choque elétrico intenso e prolongado. De uma maneira incrível, elas reagem do mesmo modo quando as assustamos lhes prendendo num espaço reduzido ou lhes fazendo sentir o cheiro de um membro ferido de sua espécie. Os pesquisadores concluíram que o anzol suspenso num fio provoca certa combinação de terror e de dor.

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Na pesca a linha, o contraste é grande entre a aparência de um lado, quer dizer o ar despreocupado e calmo do pescador (acima), e a realidade mortal da violência cometida (abaixo). As duas imagens foram retiradas de A Pesca, ed. Larousse, 1968.

Durante a luta do peixe preso ao anzol, seu glicogênio muscular (forma de estoque de glicose) é consumido e exterminado, assim como o acido láctico se acumula rapidamente em seu sangue. Em alguns minutos, a metade das reservas de glicogênio de uma truta arco-íris é desgastada pelo esforço violento que ela fornece. No número de maio de 1990 do Field and Stream, o cronista Bob Stearns reconhece que o acido láctico pode « imobilizar » um peixe « de modo bem mais rápido e intenso que as câimbras e outras dores musculares que nós, humanos, sentimos quando exercitamos demais os músculos ». Quanto mais o peixe luta, maior é a acumulação de acido láctico. Porém, os pescadores sentem prazer em « trabalhar » duro durante a pesca. No numero de julho de 1990, Stearns exalta uma « pequena esposa de pescador » que pesca um peixe espada durante mais ou menos cinco horas: « Cada vez que o peixe ficava lento, ela aproveitava a ocasião: puxando-lhe, pressionando e forçando-o a gastar suas próprias reservas de energia, não lhe dando um único instante de descanso ». Antes de ser tirado da água, muitos peixes morrem de cansaço.

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Diversas variedades de anzóis

Para muito outros, o pior dos sofrimentos ainda está por vir. Tipicamente, o pescador puxa os peixes médios e grandes para dentro do barco fisgando-os com a ajuda de um arpão. Às vezes eles são esfolados vivos. Muitos pescadores têm o habito de fisgar as presas ainda vivas numa corda ou uma rede que eles deixam por horas na água. Uma corda é fincada em cada peixe, geralmente pela boca e saindo por uma abertura das brânquias. Uma rede, munida de fechos que parecem enormes alfinetes, serve para emparelhar os peixes, geralmente através da mandíbula. A maioria dos peixes da pesca de lazer morre sufocada. Mesmo fora da água a morte pode ser lenta. Na edição de outubro de 1980 de Field and Stream, Ken Schulz descreve uma Perca depois de uma hora fora da água: ela tinha as nadadeiras e brânquias vermelhas e « continuava a sufocar ».

A pesca em que o pescador libera a presa inflige, no mínimo, terror, dor e uma incapacidade temporária ou seguida, permanente ou fatal. O editor adjunto de Field and Stream, Jim Bashline, admite em um artigo do número de maio de 1990 que é freqüente ver o peixe « se debater violentamente quando o pescador puxa o anzol, que ele foge e bate brutalmente no fundo do barco ou do solo rochoso ». As quedas, a manipulação dos fios ou a mão e outras agressões ainda machucam a pele superficial delicada e transparente do peixe. Esta camada mucosa externa o protege contra infecções e protege os tecidos subjacentes contra a entrada ou saída excessiva de água; todas as condições que podem ser fatais. Experiências que também foram feitas confirmam que os peixes podem morrer de envenenamento por causa do próprio ácido lático, e isso muitas horas depois de estarem exaustos, e terem ficado muito tempo completamente paralisados. O próprio anzol é sempre uma fonte de machucados. O peixe que tem a boca gravemente dilacerada pode ficar incapaz de se alimentar. Muitos peixes são ainda soltos com o anzol preso nas brânquias ou nos órgãos internos, no caso de o terem engolido.

A pesca constitui também uma tortura infligida a aqueles que são empregados como isca. Os pequenos peixes, como os Vairões (ou Tanictis) utilizados com este fim, são geralmente presos pelas costas, lábios, ou mesmo pelos olhos. Já que as feridas tendem a atrair as espécies predatórias que são procuradas, certos pescadores infligem ainda outras às suas iscas, cortando as nadadeiras ou quebrando-lhes as costas.

A administração dos peixes para a pesca de lazer

A fim de assegurar a estabilidade do número de presas, os criadores de alevinos nos Estados Unidos soltam, por ano, nos estuários das águas centenas de milhões de peixes, principalmente salmões e trutas. Ted Williams, que se descreve ele mesmo « um antigo cão de guarda dos administradores« , qualificou as criações de peixes de « lixos genéticos ». Num artigo publicado em setembro de 1987 no Audubon, ele escreve: « Depois de anos de reprodução consangüínea, as trutas dos criadores tendem a ser deformadas. Os opérculos branquiais não fecham mais, as mandíbulas são tortas, as caudas são esmagadas ». Certas más mutações são cultivadas intencionalmente; assim, a agência governamental de gestão da fauna selvagem do Estado de Utah tem produzido massivamente albinos, sensíveis à luz, para servirem de presas fáceis de serem capturadas.

Williams deplora as condições de criação de trutas dos criadores e fala de « tanques de concreto infectos e superlotados, que eliminam as escamas e as nadadeiras dos peixes ». Ele adiciona que os peixes são despreparados para a vida selvagem. Mesmo se as trutas fogem quando sentem um movimento acima delas, as que vêm dos criadouros ficam lá, esperando para serem alimentadas (os pescadores não reclamam). Williams, ele mesmo apaixonado pela pesca de linha, abre a barriga de uma truta de um criadouro, e encontra numerosos tocos de cigarro que o peixe, habituado a comer granulados, tinha engolido.

Mark Sosin, adepto da pesca de lazer e John Clarke, biólogo de pesca, escreveram um livro para os pescadores de linha, Through the Fish's Eye: An Angler's Guide to Gamefish Behaviour (« Através do olho do peixe: um guia sobre o comportamento dos peixes ») , no qual eles ingenuamente definem como objetivo da administração da criação dos peixes: « fornecer o melhor peixe para o prazer do pescador ». Com o objetivo de reduzir a população dos pequenos peixes que não lhes interessam e aumentar a claridade da água, os administradores esvaziam parcialmente com freqüência certos lagos e tanques, deixando assim as espécies não desejadas sofrer da falta de alimento, da falta da cobertura de água, de espaço para evitar os predadores. Friamente, Sosin e Clarke aconselham: « Quando um lago ou tanque fica fortemente povoado de espécies não desejados, a melhor solução pode ser aniquilar todos os peixes e recomeçar de novo. Podemos geralmente secar o lago, ou envenenar todos os peixes (...) Uma vez todos os peixes mortos, a bacia pode ser cheia de novo e povoada segundo a combinação desejada de espécies predatórias e presas ». A combinação desejada é, deve-se compreender, aquela que desejam os pescadores de linha e « administradores da fauna » cujos salários vêm em grande parte das licenças de pesca.

A maioria dos humanos sente pouca simpatia pelos peixes. Porque os enxergam como uma massa, ou como idênticos através de espécie, as pessoas negligenciam facilmente os peixes como indivíduos. Porque o mundo deles é um mundo aquático cujos meios de comunicação escapam aos nossos sentidos, porque sua aparência física difere tanto da nossa... Por todas essas razões, muitos humanos não lhes reconhecem a sensibilidade. O resultado é que o mau trato destes animais é socialmente aceitável. À medida que o número de pessoas conscientes acreditar na sensibilidade dos peixes, estes começarão a receber a compaixão e o respeito que merecem.

No domínio dos sentimentos, Big Red tem muito a nos ensinar.


Notes :

1.

« Os peixes que são largamente consumidos– atuns, arengues e bacalhaus pequenos– são todos pescados entre a superfície e em torno de 800metros de profundidade. Mas a concorrência e a raridade de bancos obrigam os barcos pesqueiros a mergulharem os fios cada vez mais profundamente. Resultado: os peixes que até agora desconhecíamos chegam ao mercado. Como o Peixe rato (ou Peixe prego), que vive a mais de 1400 metros de profundidade.
« Para responder às necessidades dos novos pescadores, uma sonda acaba de ser colocada por Micrel, uma sociedade da Bretanha, em colaboração com o Ifremer (Instituto francês de pesquisa e exploração do mar) ».

Libération, 16 de outubro de 1991; NdT.

Trance

http://fr.wikipedia.org/wiki/Trance
L'esprit de cette musique vient du fait que la musique et la danse peuvent altérer la perception sensorielle de l'auditeur et le transporter dans un état d'extase hypnotique et méditative

segunda-feira, 31 de agosto de 2009


http://www.atea.org.br/

2. Sou feliz sem crer em nenhum deus.

3. Você precisa de um deus para ser bom? Nós não.

4. Imagem ou texto mostrando ateus famosos. Texto: você sabe qual deles é ateu? TODOS. Subtítulo: Somos milhões no Brasil, centenas de milhões no mundo. Sugestões de nomes: Camila Pitanga, Angelina Jolie, Paulo Autran, Dercy Gonçalves, Charlie Chaplin, Daniel Radcliffe, José Saramago, Glória Maria, Drauzio Varella, Cássia Eller, Jodie Foster, Jorge Amado, Walmor Chagas.

5. Imagens de crucifixos na Câmara, Senado, Supremo e Planalto, "Deus seja louvado" nas cédulas, "Sorocaba é do senhor Jesus" e os dizeres "ateus também são cidadãos". Subtítulo: Queremos igualdade. Merecemos respeito.

6. A fé não dá respostas. Ela só impede as perguntas.

7. Sorria! O inferno não existe.

8. Você é quase tão ateu quanto nós. Quando você entender por que não acredita em todos os outros deuses, saberá por que não acreditamos no seu.

9. Duas mãos trabalhando fazem mais do que mil em oração.



domingo, 2 de agosto de 2009

Folha de São Paulo, 02/08/09
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc0208200914.htm
Tutor de cabo Anselmo é acusado de tortura

Associação de perseguidos políticos afirma que há depoimentos de pessoas torturadas no Dops por delegado, que nega acusações

Carlos Alberto Augusto diz que atuou somente como informante na perseguição a militantes e que se sente preparado para novo golpe

LUCAS FERRAZ
EM SÃO PAULO

O delegado Carlos Alberto Augusto, do 12º distrito de São Paulo, é suspeito de comandar sessões de tortura no Dops (Departamento de Ordem Política e Social) da capital na ditadura militar (1964-85). Amigo e tutor do cabo Anselmo, ambos participaram como informantes de um dos mais violentos episódios do regime.
Carlos Alberto trabalhou de janeiro de 1970 a 1977 no Dops, onde respondia diretamente ao chefe do órgão, Sérgio Paranhos Fleury. De acordo com Ivan Seixas, diretor do Fórum dos Ex-Presos e Perseguidos Políticos de São Paulo, há vários testemunhos de pessoas torturadas por ele nas dependências do Dops. "Ele era conhecido lá como Carlinhos Metralha. Eu mesmo o via andando sempre com uma metralhadora pendurada no ombro."
Ivan apontou Carlos Alberto como torturador em audiência recente no Ministério Público Federal de SP. O delegado nega.
"Isso é mentira. Eu era agente de informação, não trabalhava em ações", afirma. "Apenas cumpri meu dever de defender o país do comunismo. Não me arrependo de nada."
Aos 66 anos, Carlos Alberto ainda parece viver nos anos de chumbo. Diz estar pronto para servir as Forças Armadas caso seja necessário um novo golpe.
"O país que eu desejo não é este que está aí. Esses caras do governo [Lula] são todos sanguinários. Tudo comunista bandido e covarde. Estou à disposição dos militares na hora em que eles precisarem de novo."
O delegado considera Anselmo, tido como um dos maiores delatores da ditadura, um injustiçado. Em sua conta, só no Dops paulista havia mais de 50 informantes da repressão que eram de organizações de esquerda. "Havia de tudo. De padres a médico. No trabalho que fazia, tinha acesso a alguns."
José Anselmo dos Santos, o líder dos marinheiros que detonou a queda do governo João Goulart, em 64, e que depois virou informante da repressão, tenta 45 anos depois reaver seus documentos originais. Na última quinta, ele fez perícia na Justiça Federal de SP para obter de novo carteira de identidade, CPF e título eleitoral.

Massacre
A última ação de Anselmo ocorreu junto com Carlos Alberto. No episódio, conhecido como massacre de São Bento, foram assassinados seis militantes da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária). No livro "A Ditadura Escancarada", o jornalista Elio Gaspari descreveu a ação como uma "das maiores e mais cruéis chacinas da ditadura".
O ex-marujo tinha vida dupla: fingia militar na organização, mas entregava companheiros. Carlos Alberto também se infiltrou na VPR por três anos.
Na época, a versão oficial era de que houve tiroteio quando os oficiais cercaram o local.
Mas os seis da VPR foram capturados em pelo menos quatro lugares diferentes. Os corpos, encontrados na chácara. "Os mortos da VPR teriam disparado dezoito tiros, sem acertar um só. Receberam 26, catorze na cabeça", escreveu Gaspari.


Colaborou ANDRÉ CAMARANTE , da Reportagem Local

terça-feira, 30 de junho de 2009

vai uma carninha aí?

http://zerohora.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default.jsp?uf=1&local=1§ion=Geral&newsID=a2563675.xml
Geral | 30/06/2009 | 20h13min

Carne apreendida em Caçapava do Sul era de cachorro
Delegada de polícia civil anunciou laudo extraoficial nesta terça-feira
Bianca Backes | bianca.backes@diariosm.com.br

Seria mesmo de cachorro a carne vendida para consumo por um usuário de crack, em Caçapava do Sul, na Região Central, há cerca de um mês. A delegada da cidade, Fabiane Bittencourt, divulgou nesta terça-feira que, extraoficialmente, foi informada sobre resultado do exame realizado em um pedaço de carne apreendido no bairro Promorar.

De acordo com peritos que conversaram com ela, a peça, comercializada como se fosse de porco ou de ovelha, é de cachorro. O suspeito de matar cães e vender a carne foi identificado, mas ainda não foi localizado pela Polícia Civil.

domingo, 21 de junho de 2009

Ética não precisa

Não costumo escrever nada aqui de próprio punho. Normalmente trago matérias que considero interessantes. No entanto, dessa vez não pude resistir.

Televisão quebrada em casa. Nem estou fazendo questão de consertar. Às vezes conecto em alguns canais de tv aberta e fechada via internet para ver o que passa. Ontem, sábado, 20 de junho, tive o desprazer de conectar na TV Record durante a noite. Estava passando o programa "A Fazenda", mais um reality show, que, pelo que soube, recebeu algumas críticas por ter em seu elenco apenas celebridades de médio escalão. Não sei bem o que diferencia o médio escalão dos demais e na verdade nem faço questão de saber. Aliás, celebridade não tem função nenhuma, tem sim é uma desfunção. Mas esse não é o assunto agora.

O programa "A Fazenda" apresentou diversas discussões com agressividade extrema e violência verbal extremada. Fiquei chocado. Hoje pela manhã acordei e fui pesquisar um pouco sobre o tal programa no youtube. Fiz uma pesquisa com os seguintes termos:

"a fazenda" briga

Encontrei 256 resultados! Fui olhar alguns deles, por exemplo:
A Fazenda - QUASE AGRESSÃO DO MIRO: Modelo parte para cima do Theo. Parte 2.

Cenas de agressividade, violência, preconceito, desrespeito.
E a cara do apresentador Britto Jr? Piora ainda mais a situação. Eu me sentiria tão ruim de apresentar um programa desse nível ...


A Fazenda - Theo e Fábio Arruda batem boca







Em quatro partes. Cenas de agressividade, discussão e preconceito.


A Fazenda Briga Entre Dado x Theo Round 2

Violência e agressividade.


A Fazenda | Luciele se descontrola com Theo

Sem palavras.



Absurdo! Impressionante como uma emissora de televisão pensa que isso é um programa de interesse nacional. Televisão, assim como os demais meios de comunicaçao, é uma concessão pública, e deve atender ao interesse público. É impossível pensar que exista interesse público em um programa que transmita essas imagens.

Diante disso encaminhei denúncias ao Ministério Público Federal e à Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados pedindo providências.

O pior de tudo foi que depois de fazer isso fui pesquisar algumas outras coisas ainda sobre o assunto. Tudo ficou mais claro.
- pesquisar no orkut se havia alguma comunidade pedindo mais ética na tv. Resultado da pesquisa: as duas comunidades com maior número de membros são:
"Ética? Eu Quero é Bunda na TV!"
"Ética na TV é o kct!!!"
- fui pesquisar as informações sobre classificação indicativa do Ministério da Justiça, sem querer apertei o enter após escrever apenas "classificação", e vieram as páginas de futebol.

Conclusão: o país é o Brasil da bunda e do futebol, ética não precisa! Viva a baixaria e a ignorância!

Mas registre-se: a minha parte eu fiz e vou continuar fazendo...

segunda-feira, 25 de maio de 2009

"Quase tão ridículo quanto negar uma verdade evidente é realizar um grande esforço para defendê-la. E nenhuma verdade me parece mais evidente que a de que os animais são dotados de pensamento e razão, assim como os homens. Os argumentos neste caso são tão óbvios que não escapam nem aos mais estúpidos e ignorantes."
(HUME, David. Tratado da natureza humana. São Paulo: UNESP, 2001. p. 209)

domingo, 24 de maio de 2009

http://www1.folha.uol.com.br/folha/equilibrio/noticias/ult263u570731.shtml
24/05/2009 - 13h36

Brasileiros são os que mais gastam em cosméticos na América do Sul, diz pesquisa

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da Efe, em Santiago do Chile

O Brasil é o país da América do Sul que mais consome cosméticos e remédios que podem ser comprados sem receita, segundo um estudo da empresa de consultoria Euromonitor e do jornal chileno "Estrategia".

No caso dos cosméticos, a despesa anual média por habitante no Brasil é de US$ 116,20; no Chile, é de US$ 96,50, enquanto que na Argentina, chega a US$ 74,90.

Já em relação aos medicamentos sem receita, o brasileiro gasta anualmente em média US$ 27,20 nesse tipo de produto, mais do que o chileno (US$ 20,80) e que o argentino (US$ 19,30).

O Brasil também gasta mais em bebidas quentes (café, chás) -- US$ 31 em média por habitante ao ano, mais que os US$ 24,90 na Argentina, o segundo país com mais despesas nesse quesito.

Além do Brasil, o estudo inclui dados de Argentina, Chile, Colômbia e Peru.

Os argentinos lideram o consumo anual médio de alimentos frescos (US$ 429 por habitante), seguidos dos brasileiros (US$ 380,20).

O mesmo acontece em relação às despesas com eletrodomésticos, nas quais os vizinhos gastam US$ 103,10 por habitante contra US$ 51,30 no Brasil.

Os chilenos, por sua vez, são os que mais gastam com bebidas alcoólicas - US$ 233,90 contra US$ 226,20 no Brasil - e com tabaco e derivados - US$ 91,40, logo à frente dos argentinos, com US$ 55,10, e dos brasileiros, com US$ 41.

http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u570697.shtml
24/05/2009 - 10h53

Aversão a dar carona é maior no Itaim Bibi

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RICARDO SANGIOVANNI
da Folha de S.Paulo

Quem mora no Itaim Bibi considera os engarrafamentos o principal problema da região onde vive. Também, pudera: o distrito nobre da zona oeste de São Paulo, que atrai a maior quantidade de viagens de carro por dia, atrai também os motoristas com hábitos mais individualistas da capital paulista.

De cada cinco motoristas que têm o Itaim Bibi como destino diariamente (o que inclui quem mora no distrito), só um leva passageiro. É quase o dobro da média da cidade, que é de um motorista com acompanhante a cada dois carros, segundo a pesquisa Origem/Destino do Metrô, espécie de censo dos transportes.

Apontado por especialistas como agravante do caos do trânsito, o uso do automóvel quase sempre com ocupação mínima (chamado de "irracional" por alguns, já que o compartilhamento ajudaria a tirar carros da rua e melhorar o trânsito e a qualidade do ar) tem como protagonistas desde motoristas que não dão carona por convicção até quem nunca se ofereceu para levar o vizinho ou o colega simplesmente porque ignora para onde ele vai.

Os outros nove distritos que mais atraem carros por dia também fazem a média de caronas da cidade comer poeira.

Junto com o Itaim, Pinheiros, Jardim Paulista e Perdizes, na zona oeste, e Vila Mariana, Saúde, Moema, e Santo Amaro, na região sul, formam a "mancha" do individualismo no trânsito no mapa da cidade.

Os "ingredientes" para atrair carros são mais ou menos os mesmos: são de classe média alta, ficam na região central, têm alta concentração de carros por família e grande densidade de prédios altos.

Nesses distritos a quantidade de viagens atraídas por dia supera 100 mil e, em geral, só um a cada três motoristas leva passageiro. A exceção é Perdizes, que com Sacomã (sul) e Santana (único da zona norte) completa o "top 10" do individualismo --a média nos três é de uma carona a cada dois carros.

Conversa fiada

"Dar carona para ajudar a melhorar o trânsito é conversa fiada. É como vestir camisa branca para protestar contra a violência: não resolve nada", diz o comerciante Gilberto Giusepone, 61, que trabalha no Itaim Bibi, onde chega de carro sozinho todos os dias. "O que ajuda a diminuir o trânsito é mais metrô, linhas de ônibus mais inteligentes e menos ruas usadas como estacionamento."

Dona de um consultório no mesmo centro empresarial onde Giusepone trabalha, a médica Regina Messina, 38, até costuma dar carona. Mas só para os amiguinhos de escola de seus dois filhos de 9 e 7 anos --o restante das atividades ela faz "sozinha mesmo".

"Tenho carro e tenho onde estacionar. Então, nem cogito [pegar carona]", diz ela, que mora nos Jardins (oeste), a 4,5 km (a 12 minutos de carro) do trabalho. Na casa, são dois carros: um dela, outro do marido.

O centro empresarial onde a médica e o comerciante trabalham recebe 2.000 carros por dia. Em 30 minutos, na manhã de quarta-feira, de 36 veículos que passaram por uma das entradas do estacionamento, só cinco levavam passageiros.

Regina diz que não se incomodaria em levar um vizinho ou um colega de trabalho se os locais onde mora e frequenta criassem algum projeto de incentivo à carona solidária -algo que, porém, diz jamais ter visto. Ir de carona ou de transporte público? Jamais. "A comodidade [de andar de carro] é muito atraente", confessa.

domingo, 26 de abril de 2009

http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u556420.shtml
26/04/2009 - 09h33
Moradores de rua perdem albergues no centro de São Paulo
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BRUNO RIBEIRO
do Agora

Com a alegação de que não tinham dinheiro para manter um serviço com o mínimo de qualidade, dois albergues do centro da capital fecharam as portas nos últimos dois meses. Um deles, o Glicério, era o maior da região, com 720 vagas por noite. Um terceiro abrigo suspendeu parte das atividades devido a um incêndio e ainda não tem prazo para voltar a funcionar.

Paralelamente, a Prefeitura de São Paulo mantém um programa para retirar sem-teto do centro e encaminhá-los para abrigos em bairros mais afastados, como São Miguel Paulista (zona leste).

A medida, por um lado, garante abrigo para o morador de rua. Mas, por outro, revela um esquema que já é chamado de "limpeza" por ativistas ligados à área. Os moradores que aceitam ir para os albergues mais distantes têm dificuldades para voltar ao centro, que fica com menos pedintes nas ruas.

"É muito longe. Mas tem dias em que é preciso ir para um lugar tomar banho e vestir roupa limpa, então a gente aceita. Mas depois gasta o dia inteiro para voltar", diz o morador de rua Genésio da Silva, 47 anos, que perambula pela Sé (região central).

O ponto de maior concentração de moradores de rua no centro é na rua Boa Vista. A calçada vira uma enorme cama coletiva. Mendigos e policiais militares que patrulham a área dizem que, no centro, estão as melhores opções para quem não tem um lar.

"Vem católico, evangélico e espírita para oferecer sopa. Nem dá para dormir", brinca outro sem-teto, José Vicente de Freitas, 58 anos. "Mas a gente sabe que não é bem-vindo. Atrapalhamos a paisagem, aqui é ponto turístico."

O Agora viu uma das peruas da prefeitura em ação na última terça-feira à noite. Uma assistente social passou pelo pátio oferecendo vagas. Não era para albergues do centro, mas sim da Vila Alpina (zona leste de SP). O veículo ficou meia hora parado até ficar cheio e partir. "Entra quem quer", repetia a assistente.

A Província Franciscana, órgão da Igreja Católica que mantinha os albergues São Francisco de Assis, no Glicério, e Cirineu, no viaduto Jacareí, afirma que não teve opção senão romper o convênio com a prefeitura. "Se a entidade faz um convênio e quer manter a qualidade do serviço, tem de entrar com uma contrapartida [em dinheiro] muito alta", afirma o frei José Francisco de Cássia dos Santos (leia texto nesta página).

A decisão de encerrar o convênio foi da entidade, diz ele, mas a decisão de fechar o albergue foi da prefeitura. "Ela [prefeitura] poderia ter buscado convênio com outra entidade." Santos diz que o albergue do Glicério exigia R$ 30 mil por mês da entidade e que o repasse da Prefeitura de São Paulo ao serviço era perto de R$ 100 mil.

No albergue Lygia Jardim, na Bela Vista, a coordenadora Isa Magalhães finaliza a reforma para poder reabrir. O incêndio na ala feminina comprometeu parte do prédio: a ala feminina foi transferida para a masculina e a dos homens foi desativada por enquanto. O convênio com a prefeitura está mantido e, segundo Isa, o repasse é suficiente por ser um local menor.

Vagas foram transferidas

A Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social nega que haja um projeto para limpar o centro da cidade dos moradores de rua, como acusam os envolvidos nesse serviço.

A Secretaria de Assistência Social, chefiada pela vice-prefeita Alda Marco Antonio (PMDB), informou, em nota, que no centro expandido da cidade a secretaria tem "cerca de 40 serviços conveniados para o atendimento à população em situação de rua, entre albergues, bagageiros, núcleos de convivência e de serviços, abrigos especiais e repúblicas".

A prefeitura diz que a população assistida pelo albergue Cirineu foi transferida para outro local, o albergue Frei Galvão (que tem capacidade para 200 pessoas), e que o albergue Lygia Jardim vai voltar a atender homens até maio. A prefeitura não informa, no entanto, o que fez a respeito da diferença entre as vagas fechadas e que não foram reabertas.

Sobre as pessoas assistidas no Glicério, a secretaria diz que "todas foram devidamente encaminhadas para a rede socioassistencial e foram fornecidas outras alternativas a elas, como retorno ao local de origem, retorno familiar e moradia autônoma", diz o texto.

A secretaria diz ainda que contratou a Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas) para fazer um novo censo da população em situação de rua de São Paulo, que deve ser divulgado ainda neste ano.

Continuem "criando" porcos ...

http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u556283.shtml
25/04/2009

EUA dizem que não podem conter epidemia de gripe suína

As autoridades do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, em inglês) dos Estados Unidos alertaram neste sábado que, apesar do registro de apenas oito casos de gripe suína no país, o vírus pode se propagar facilmente e não poderá ser contido.

"É preciso estar preparado para o pior. A situação é muito séria e estamos muito preocupados", disse durante teleconferência a diretora interina de saúde pública do CDC, Anne Schuchat. "al como estamos tomando conhecimento de infecções em várias comunidades diferentes, não cremos que seja possível conter [o vírus]".

Até agora, ao menos 20 pessoas morreram comprovadamente devido à doença, mas há outras 48 mortes que podem estar relacionadas ao vírus. Centenas estão infectadas no México e oito nos Estados Unidos e a situação é considerada séria.

A OMS preocupa-se, particularmente, com a capacidade de o vírus se transmitir de homem para homem. Todos os casos constatados no México procedem do contágio humano, segundo o ministério mexicano da Saúde. O vírus seria de origem europeia ou asiática, declarou o ministro José Angel Cordova. Segundo as autoridades mexicanas, não há risco de transmissão pela ingestão de carne de porco.

A doença atinge "jovens adultos com boa saúde", e a mutação do vírus é inédita, "com seus genes jamais encontrados antes" segundo a OMS. O fato de os adultos serem o alvo da doença sugere que as populações mais vulneráveis --crianças e idosos-- tenham ficado imunizadas devido às vacinas contra gripe. Remédios antigripais como o Tamiflu também são considerados eficientes contra a infecção, principalmente se administrados quando os primeiros sintomas se manifestam, informou o CDC nesta sexta-feira.

Potencial de pandemia"

"Estamos preocupados e por causa disso, trabalhando agressivamente em numerosas frentes" disse a diretora do centro americano. "Sua propagação está clara. E é por isso que devemos informar que não conseguimos conter a proliferação do vírus."

Dirigentes dos centros de saúde dos Estados Unidos, México, Canadá e da OMC mantêm contactos frequentes para melhor conduzir as investigações.

Os comentários de Anne Schuchat foram feitos posteriormente às declarações, em Genebra, a diretora da OMS, Organização Mundial de Saúde, Margaret Chan; ela havia dito que o vírus possui "claramente um potential de pandemia" e a evolução da situação era "imprevisível".

Para a OMS, o tempo urge, porque a doença já se estende geograficamente.

A prova, a cepa detectada em 12 casos mortais mexicanos é "geneticamente idêntica" à descoberta na Califórnia, Estados Unidos, país vizinho, onde oito casos não mortais foram identificados, precisou a OMS.

Casos suspeitos foram detectados em Nova York onde 75 estudantes apresentaram sintomas - benignos - da gripe e foram submetidos a análises, segundo as autoridades sanitárias.

Com Efe, France Presse e Reuters

domingo, 19 de abril de 2009

Folha de São Paulo, 17/04/09
http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u552229.shtml
17/04/2009 - 12h15

Reality show holandês defende Bin Laden e condena papa

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da Efe, em Haia

Um novo reality show na televisão holandesa gerou polêmica ao declarar o suposto líder da Al Qaeda, Osama bin Laden, inocente dos atentados de 11 de Setembro nos Estados Unidos e o papa Bento 16 culpado da morte de doentes de aids.

Ambos os veredictos foram proclamados por um júri popular composto por cinco cidadãos holandeses no novo programa de televisão "O Advogado do Diabo", que simula um julgamento de um personagem da atualidade sobre o qual são apresentadas três acusações.

No caso de Bin Laden o júri o considerou somente "culpado" de ser um terrorista, mas o absolveu das acusações de ser líder da rede terrorista Al Qaeda e de ser responsável pelos atentados de 11 de Setembro, onde morreram quase 3.000 pessoas.

O júri condenou o papa Bento 16, que rejeita o uso do preservativo, pelas mortes de muitos doentes de aids e também o considerou culpado por discriminar mulheres e homossexuais.

Um dos primeiros a criticar o programa foi o ex-prefeito de Nova York, Rudy Giuliani, no comando do governo municipal quando aconteceram os atentados, e caracterizou a mensagem do programa como "confusa", segundo informa nesta sexta-feira a agência "ANP".

O programa, que estreou na semana passada, é transmitido às quartas-feiras na televisão pública holandesa, embora a "Avro", a emissora que o projetou, seja financiada com fundos de seus próprios assinantes.

No programa --que, segundo uma porta-voz da rede, quer fazer os telespectadores refletirem-, um conhecido advogado criminalista holandês defende o personagem escolhido a cada semana e outros dois especialistas se fazem de acusadores.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=15896
Política| 31/03/2009 | Copyleft

As manchetes do golpe militar de 1964

"Que tal republicar as manchetes de cada órgão de imprensa naquele primeiro de abril de 1964? - sugeriu Emir Sader em seu blog nesta página. Publicamos uma seleção do que foi destaque em alguns dos principais jornais do Brasil a partir do dia 1° de abril de 1964. "Graças à decisão e ao heroísmo das Forças Armadas que, obedientes a seus chefes, demonstraram a falta de visão dos que tentavam destruir a hierarquia e a disciplina, o Brasil livrou-se do governo irresponsável, que insistia em arrastá-lo para rumos contrários à sua vocação e tradições", disse o Globo, apoiando o golpe militar.

Emir Sader sugeriu em seu blog aqui na Carta Maior: “que tal republicar as manchetes de cada órgão de imprensa naquele primeiro de abril de 1964?”. Aqui está uma seleção do que foi destaque nos principais jornais do Brasil a partir do 1º de abril de 1964. Se algum desavisado recebesse em mãos qualquer destes periódicos imaginaria a ditadura com carnaval nas ruas e militares ovacionados pelo povo. A pesquisa abaixo foi publicada no blog da BrHistória, da jornalista Cristiane Costa:

“Ressurge a Democracia! Vive a Nação dias gloriosos. Porque souberam unir-se todos os patriotas, independentemente das vinculações políticas simpáticas ou opinião sobre problemas isolados, para salvar o que é de essencial: a democracia, a lei e a ordem.

Graças à decisão e ao heroísmo das Forças Armadas que, obedientes a seus chefes, demonstraram a falta de visão dos que tentavam destruir a hierarquia e a disciplina, o Brasil livrou-se do governo irresponsável, que insistia em arrastá-lo para rumos contrários à sua vocação e tradições.

Como dizíamos, no editorial de anteontem, a legalidade não poderia ter a garantia da subversão, a ancora dos agitadores, o anteparo da desordem. Em nome da legalidade não seria legítimo admitir o assassínio das instituições, como se vinha fazendo, diante da Nação horrorizada ...”

(O Globo - Rio de Janeiro - 4 de Abril de 1964)

“Multidões em júbilo na Praça da Liberdade.
Ovacionados o governador do estado e chefes militares.
O ponto culminante das comemorações que ontem fizeram em Belo Horizonte, pela vitória do movimento pela paz e pela democracia foi, sem dúvida, a concentração popular defronte ao Palácio da Liberdade. Toda área localizada em frente à sede do governo mineiro foi totalmente tomada por enorme multidão, que ali acorreu para festejar o êxito da campanha deflagrada em Minas (...), formando uma das maiores massas humanas já vistas na cidade”

(O Estado de Minas - Belo Horizonte - 2 de abril de 1964)

“Salvos da comunização que celeremente se preparava, os brasileiros devem agradecer aos bravos militares que os protegeram de seus inimigos”
“Este não foi um movimento partidário. Dele participaram todos os setores conscientes da vida política brasileira, pois a ninguém escapava o significado das manobras presidenciais”

(O Globo - Rio de Janeiro - 2 de Abril de 1964)

“A população de Copacabana saiu às ruas, em verdadeiro carnaval, saudando as tropas do Exército. Chuvas de papéis picados caíam das janelas dos edifícios enquanto o povo dava vazão, nas ruas, ao seu contentamento”
(O Dia - Rio de Janeiro - 2 de Abril de 1964)

“Escorraçado, amordaçado e acovardado, deixou o poder como imperativo de legítima vontade popular o Sr João Belchior Marques Goulart, infame líder dos comuno-carreiristas-negocistas-sindicalistas. Um dos maiores gatunos que a história brasileira já registrou., o Sr João Goulart passa outra vez à história, agora também como um dos grandes covardes que ela já conheceu.”
(Tribuna da Imprensa - Rio de Janeiro - 2 de Abril de 1964)

“A paz alcançada. A vitória da causa democrática abre o País a perspectiva de trabalhar em paz e de vencer as graves dificuldades atuais. Não se pode, evidentemente, aceitar que essa perspectiva seja toldada, que os ânimos sejam postos a fogo. Assim o querem as Forças Armadas, assim o quer o povo brasileiro e assim deverá ser, pelo bem do Brasil”
(Editorial de O Povo - Fortaleza - 3 de Abril de 1964)

“Desde ontem se instalou no País a verdadeira legalidade ... Legalidade que o caudilho não quis preservar, violando-a no que de mais fundamental ela tem: a disciplina e a hierarquia militares. A legalidade está conosco e não com o caudilho aliado dos comunistas”
(Editorial do Jornal do Brasil - Rio de Janeiro - 1º de Abril de 1964)

“Milhares de pessoas compareceram, ontem, às solenidades que marcaram a posse do marechal Humberto Castelo Branco na Presidência da República ...O ato de posse do presidente Castelo Branco revestiu-se do mais alto sentido democrático, tal o apoio que obteve”
(Correio Braziliense - Brasília - 16 de Abril de 1964)

“Vibrante manifestação sem precedentes na história de Santa Maria para homenagear as Forças Armadas. Cinquenta mil pessoas na Marcha Cívica do Agradecimento”
(A Razão - Santa Maria - RS - 17 de Abril de 1964)

“Vive o País, há nove anos, um desses períodos férteis em programas e inspirações, graças à transposição do desejo para a vontade de crescer e afirmar-se. Negue-se tudo a essa revolução brasileira, menos que ela não moveu o País, com o apoio de todas as classes representativas, numa direção que já a destaca entre as nações com parcela maior de responsabilidades”.
(Editorial do Jornal do Brasil - Rio de Janeiro - 31 de Março de 1973)

“Golpe? É crime só punível pela deposição pura e simples do Presidente. Atentar contra a Federação é crime de lesa-pátria. Aqui acusamos o Sr. João Goulart de crime de lesa-pátria. Jogou-nos na luta fratricida, desordem social e corrupção generalizada”.
(Jornal do Brasil, edição de 01 de abril de 1964.)

"Participamos da Revolução de 1964 identificados com os anseios nacionais de preservação das instituições democráticas, ameaçadas pela radicalização ideológica, greves, desordem social e corrupção generalizada".
Editorial do jornalista Roberto Marinho, publicado no jornal" (O Globo", edição de 07 de outubro de 1984, sob o título: "Julgamento da Revolução").

Mais algumas manchetes:

31/03/64 – CORREIO DA MANHÃ – (Do editorial, BASTA!): "O Brasil já sofreu demasiado com o governo atual. Agora, basta!"

1°/04/64 – CORREIO DA MANHÃ – (Do editorial, FORA!): "Só há uma coisa a dizer ao Sr. João Goulart: Saia!"

1o/04/64 – ESTADO DE SÃO PAULO – (SÃO PAULO REPETE 32) "Minas desta vez está conosco"... "dentro de poucas horas, essas forças não serão mais do que uma parcela mínima da incontável legião de brasileiros que anseiam por demonstrar definitivamente ao caudilho que a nação jamais se vergará às suas imposições."

02/04/64 – O GLOBO – "Fugiu Goulart e a democracia está sendo restaurada"... "atendendo aos anseios nacionais de paz, tranqüilidade e progresso... as Forças Armadas chamaram a si a tarefa de restaurar a Nação na integridade de seus direitos, livrando-a do amargo fim que lhe estava reservado pelos vermelhos que haviam envolvido o Executivo Federal".

02/04/64 – CORREIO DA MANHÃ – "Lacerda anuncia volta do país à democracia."

05/04/64 – O GLOBO – "A Revolução democrática antecedeu em um mês a revolução comunista".

05/04/64 – O ESTADO DE MINAS – "Feliz a nação que pode contar com corporações militares de tão altos índices cívicos". "Os militares não deverão ensarilhar suas armas antes que emudeçam as vozes da corrupção e da traição à pátria."

06/04/64 – JORNAL DO BRASIL – "PONTES DE MIRANDA diz que Forças Armadas violaram a Constituição para poder salvá-la!"

09/04/64 – JORNAL DO BRASIL – "Congresso concorda em aprovar Ato Institucional".

Envie sua contribuição para enriquecer essa pesquisa!

Pesquisa: Clarissa Pont

sábado, 28 de março de 2009

Ridículo!

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2803200923.htm
CET multa cicloativistas quase um ano depois de manifestação na Paulista

DA REPORTAGEM LOCAL

Quase um ano após integrar um protesto de ciclistas nus em São Paulo, o analista de sistemas André Pasqualini, 34, recebeu da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) uma multa no valor de R$ 1.289,25 por gerar "interferências no tráfego viário" na ocasião.
O grupo, que reuniu cerca de 20 cicloativistas sem roupa e outros vestidos, se concentrou especialmente na avenida Paulista, no dia 14 de junho do ano passado.
"Os organizadores da Pedalada Pelada não protocolaram na CET nenhuma solicitação para que o passeio ciclístico fosse realizado. Dessa forma, o evento foi considerado irregular, ou seja, sem prévia autorização da autoridade de trânsito, e, por isso, foi multado conforme prevê a lei", diz, em nota, a assessoria de imprensa da companhia.
Pasqualini afirma que não pagará a multa. "[Os outros manifestantes] estão pensando em pagar em calcinhas e cuecas para a CET. Essa multa é absurda", diz ele, que, na ocasião, chegou a ser detido pela polícia pouco depois de se despir de um tapa-sexo.
A proposta do evento, batizado de World Naked Bike Ride (algo como "passeio mundial de ciclistas nus"), é protestar contra a "opressão" que as bicicletas sofrem no trânsito das grandes cidades.
Neste ano, o evento foi antecipado para 14 de março. Pasqualini estava lá novamente, mas diz que não recebeu notificação a respeito.
"Eu não sou organizador do evento. Sou um dos divulgadores (...), mas não criei essa data", diz ele. "A multa só mostra como, para a CET, os carros são a prioridade no trânsito. (...) Se carros saem de um estádio e provocam congestionamento, não são multados", afirma.
A companhia diz que o valor da multa abrange os custos do "serviço prestado" pelo órgão para dar fluência ao trânsito no dia da manifestação, acrescidos de 50%, de acordo com o que determina a lei municipal. Não oferece, contudo, mais detalhes sobre a escolha de Pasqualini para pagar a multa. (DANIEL BERGAMASCO e RICARDO SANGIOVANNI)

sábado, 21 de março de 2009

Folha de São Paulo, 21/03/09
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz2103200909.htm
NÃO

Justiça anacrônica

JOÃO BARCELOS DE SOUZA JÚNIOR

A JUSTIÇA MILITAR é tão desnecessária quanto inconcebível em uma sociedade que busca ser moderna. Os que a defendem calcam suas razões na manutenção da ordem e da disciplina militar, bem como na especialidade da matéria.
Basta uma mera análise para se verificarem as bases falsas e, o que é pior, justamente na contramão do que se busca em termos de Justiça.
A ordem e a disciplina no meio militar são atingidas pela imposição de rigorosas regras hierárquicas, enquanto a especialidade da matéria é tão somente mais uma entre tantas outras que a Justiça costuma tratar. Muito sério o primeiro argumento, pois faz da Justiça Militar uma longa mão do superior hierárquico, produzindo decisões que não visam a justiça no caso concreto, mas, simplesmente, a manutenção de disciplina ainda que às custas de injustiças.
No que tange à especialização, nada mais incongruente. A Justiça não militar lida com várias matérias específicas, tais como família, infância, ordem tributária etc., todas mais complexas do que o direito militar. Somente cerca de 5% dos processos tratados em Justiça Militar dizem respeito às questões da caserna, tais como os crimes de insubordinação, desobediência e abandono de posto.
Tais feitos, além de terem um número inexpressivo de processos, têm um grau de dificuldade da matéria quase risível diante da complexidade do que é julgado na Justiça comum ou na Justiça Federal.
Assim, caso se fosse contabilizar o número de processos em tramitação na Justiça Militar de todo o Brasil, com os descontos daqueles que realmente dizem respeito à matéria militar, certamente se obteria um número tão baixo quanto vergonhoso, de causar choro e revolta aos contribuintes. Apenas para exemplificar, no Rio Grande do Sul a Justiça Militar Estadual possui, ao todo, somados primeiro e segundo graus, menos de mil processos. Imagine se ficasse apenas com os processos que realmente dizem respeito aos crimes militares próprios?
E o que é pior: para um volume tão inexpressivo de processos, a sociedade gaúcha desembolsará, neste ano, cerca de R$ 24 milhões. Uma farra com o dinheiro público. A especialização de que tratam os defensores da Justiça Militar bem caberia em todos os setores e classes da sociedade. Recentemente a Argentina, um dos países mais militarizados do mundo, decidiu reduzir, ao máximo, a Justiça Militar, para que atue somente naqueles pouquíssimos casos de crimes militares próprios, sendo que todos os demais passarão para a competência da Justiça comum.
Veja-se isso como uma tendência mundial, somente se justificando a discussão da manutenção da Justiça Militar em âmbito de Forças Armadas e apenas para os crimes militares próprios -jamais os da Polícia Militar, dada a natureza mais do que civil das funções que desempenham os militares estaduais.
Por fim, ressalte-se a odiosa tendência corporativista dos julgamentos, com tratamentos dissidentes entre praças e oficiais, principalmente oficiais superiores. Recentemente, no Rio Grande do Sul, tive a oportunidade de denunciar na Assembleia Legislativa alguns casos de julgamentos absurdos do ponto de vista jurídico, sempre beneficiando oficiais de alta patente. A discussão tomou corpo e hoje o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, por vontade de 92% dos magistrados estaduais, está para encaminhar emenda constitucional extinguindo a Justiça Militar.
Decisões desconectadas do jurídico são comuns, pois os membros militares nem sequer necessitam ter formação em direito. Dos 4 membros militares aqui no Estado, somente 3 são formados, pois buscaram os bancos escolares depois de terem sido nomeados pelos governadores -o que, "data venia", muito pouca diferença faz para quem tem um cargo com a remuneração e o status de desembargador. Isso tudo é lamentável e muito sério pela falta de seriedade de como se constitui a Justiça Militar.

JOÃO BARCELOS DE SOUZA JÚNIOR, advogado, é promotor de Justiça do Ministério Público do Rio Grande do Sul e titular da Segunda Promotoria de Justiça Militar de Porto Alegre.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Carta Maior, 13/03/09
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Política| 13/03/2009 | Copyleft

A grande mídia e o golpe de 64

Ao se aproximar os 45 anos do 1º de abril de 1964 e diante de tentativas recentes de revisar a história da ditadura e reconstruir o seu significado através, inclusive, da criação de um vocabulário novo, é necessário relembrar o papel – para alguns, decisivo – que a grande mídia desempenhou na preparação e sustentação do golpe militar. A análise é de Venício A. de Lima.

No debate contemporâneo sobre a relação entre história e memória, argumenta-se com propriedade que a história não só é construída pela ação de seres humanos em situações específicas como também por aqueles que escrevem sobre essas ações e dão significado a elas. Sabemos bem disso no Brasil.

Ao se aproximar os 45 anos do 1º de abril de 1964 e diante de tentativas recentes de revisar a história da ditadura e reconstruir o seu significado através, inclusive, da criação de um vocabulário novo, é necessário relembrar o papel – para alguns, decisivo – que a grande mídia desempenhou na preparação e sustentação do golpe militar.

Referência clássica
A participação ativa dos grandes grupos de mídia na derrubada do presidente João Goulart é fato histórico fartamente documentado. Creio que a referência clássica continua sendo a tese de doutorado de René A. Dreifuss (infelizmente, já falecido), defendida no Institute of Latin American Studies da University of Glasgow, na Escócia, em 1980 e publicada pela Editora Vozes sob o título “1964: A Conquista do Estado” (7ª. edição, 2008).

Através das centenas de páginas do livro de Dreifuss o leitor interessado poderá conhecer quem foram os conspiradores e reconstruir detalhadamente suas atividades, articuladas e coordenadas por duas instituições, fartamente financiadas por interesses empresariais nacionais e estrangeiros (“o bloco multinacional e associado”): o IBAD, Instituto Brasileiro de Ação Democrática e o IPES, Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais.

No que se refere especificamente ao papel dos grupos de mídia, sobressai a ação do GOP, Grupo de Opinião Pública ligado ao IPES e constituído por importantes jornalistas e publicitários. O capítulo VI sobre “a campanha ideológica”, traz ampla lista de livros, folhetos e panfletos publicados pelo IPES e uma relação de jornalistas e colunistas a serviço do golpe em diferentes jornais de todo o país. Além disso, Dreyfuss afirma (p. 233):

O IPES conseguiu estabelecer um sincronizado assalto à opinião pública. Através de seu relacionamento especial com os mais importantes jornais, rádios e televisões nacionais, como: os Diários Associados, a Folha de São Paulo, o Estado de São Paulo (...) e também a prestigiosa Rádio Eldorado de São Paulo. Entre os demais participantes da campanha incluíam-se (...) a TV Record e a TV Paulista (...), o Correio do Povo (RS), O Globo, das Organizações Globo (...) que também detinha o controle da influente Rádio Globo de alcance nacional. (...) Outros jornais do país se puseram a serviço do IPES. (...) A Tribuna da Imprensa (Rio), as Notícias Populares (SP).

Vale lembrar às gerações mais novas que o poder relativo dos Diários Associados no início dos anos 60 era certamente muito maior do que o das Organizações Globo neste início de século XXI. O principal biógrafo de Assis Chateaubriand afirma que ele foi “infinitamente mais forte do que Roberto Marinho” e “construiu o maior império de comunicação que este continente já viu”.

A visão do USIA
Há outro estudo, menos conhecido, que merece ser mencionado. Trata-se de pesquisa realizada por Jonathan Lane, Ph. D. em Comunicação por Stanford, ex-funcionário da USIA, United States Information Agency no Brasil, publicado originalmente no Journalism Quarterly, (hoje Journalism & Mass Communication Quarterly), em 1967, e depois no Boletim n. 11 do Departamento de Jornalismo da Bloch Editores, em 1968, (à época, editado por Muniz Sodré) sob o título “Função dos Meios de Comunicação de Massas na Crise Brasileira de 1964”.

Lane enfatiza a liberdade de imprensa existente no país e a pressão exercida pelo governo sobre os meios de comunicação utilizando os recursos a seu dispor (empréstimos, licenças para importação de equipamentos, publicidade, concessões de radiodifusão e “recursos de partidos comunistas”). A grande mídia, no entanto, resiste, até porque “o governo não é a única fonte de subsídio com que contam os jornais. Existem outras, interesses conservadores, econômicos e políticos que controlam bancos ou dispõem de outros capitais para influenciar os jornais” (p. 7).

O autor, curiosamente, não menciona o IBAD ou o IPES e conclui que as ações do governo João Goulart e da “esquerda” retratadas nos meios de comunicação provocaram um “desgaste da antiga ordem baseada na hierarquia e na disciplina” que se tornou “psicologicamente insuportável” para os chefes militares e para a elite política, levando, então, ao golpe.

O artigo de Lane, no entanto, traz um importante conjunto de informações para se identificar a atuação da grande mídia. Tomando como exemplo a cidade do Rio de Janeiro - “o centro de comunicações mais importante” – afirma:

“Apesar das armas à disposição do governo, Goulart passou um mau bocado com a maior parte da imprensa. A maioria dos proprietários e diretores dos jornais mais importantes são homens (e mulheres) de linhagem e posição social, que freqüentam os altos círculos sociais de uma sociedade razoavelmente estratificada. Suas idéias são classicamente liberais e não marxistas, e seus interesses conservadores e não revolucionários” (p. 7).

No que se refere aos jornais, Lane chama atenção para a existência dos “revolucionários”, de circulação reduzida, como Novos Rumos, Semanário e Classe Operária (comunistas) e Panfleto (Brizolista). O mais importante jornal de “propaganda esquerdista” era Última Hora, “porta-voz do nacionalismo-esquerdista desde o tempo de Vargas”. Já “no centro, algumas apoiando Jango, outras censurando-o, estavam os influentes Diário de Notícias e Correio da Manhã”. E continua:

“Enfileirados contra (Jango) razoavelmente e com razoável (sic) constância, encontravam-se O Jornal, principal órgão da grande rede de publicações dos Diários Associados; O Globo, jornal de maior circulação da cidade; e o Jornal do Brasil, jornal influente que se manteve neutro por algum tempo, porém opondo forte resistência a Goulart mais para o fim. A Tribuna da Imprensa, ligada ao principal inimigo político de Goulart, o governador Carlos Lacerda, da Guanabara (na verdade, a cidade do Rio de Janeiro), igualmente se opunha ferrenhamente a Goulart” (pp. 7-8).

Quanto ao rádio e à televisão, Lane explica:

“Cerca de metade das estações de televisão do país são de propriedade da cadeia dos Diários Associados, que também possui muitas emissoras radiofônicas e jornais em várias cidades. (...) Os meios de comunicação dos Diários Associados, inclusive rádio e tevê, empenharam-se numa campanha coordenada contra a agitação esquerdista, embora não contra Goulart pessoalmente, nos últimos meses que antecederam ao golpe” (p. 8).

Participação ativa
A pequena descrição aqui esboçada de dois estudos que partem de perspectivas teóricas e analíticas radicalmente distintas não deixa qualquer dúvida sobre o ativo envolvimento da grande mídia na conspiração golpista de 1964.

A relação posterior com o regime militar, sobretudo a partir da vigência da censura prévia iniciada com o AI-5, ao final de 1968, é outra história. Recomendo os estudos de Beatriz Kushnir, “Cães de Guarda – Jornalistas e censores do AI-5 à Constituição de 1988” (Boitempo, 2004) e de Bernardo Kucinski, “Jornalistas e Revolucionários nos tempos da imprensa alternativa” (EDUSP, 2ª. edição 2003).

As Organizações Globo merecem, certamente, um capítulo especial. Elio Gaspari refere-se ao “mais poderoso conglomerado de comunicações do país” como “aliado e defensor do regime” (Ditadura Escancarada, Cia. das Letras, 2004; p. 452).

Em defesa da democracia
Não são poucos os atores envolvidos no golpe de 1964 – ou seus herdeiros – que continuam vivos e ativos. A grande mídia brasileira, apesar de muitas e importantes mudanças, continua basicamente controlada pelos mesmos grupos familiares, políticos e empresariais.

O mundo mudou, o país mudou. Algumas instituições, no entanto, continuam presas ao seu passado. Não nos deve surpreender, portanto, que eventualmente transpareçam suas verdadeiras posições e compromissos, expressos em editoriais, notas ou, pior do que isso, disfarçados na cobertura jornalística cotidiana.

Tudo, é claro, sempre feito “em nome e em defesa da democracia”.

Por todas essas razões, lembrar e discutir o papel da grande mídia na preparação e sustentação do golpe de 1964 é um dever de todos nós.

Agência Carta Maior, 16/03/2009
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Internacional| 16/03/2009 | Copyleft

"A Igreja Católica sempre legitimou a violência dos Estados"

A polêmica sobre a decisão do arcebispo de Olinda e Recife, Dom José Cardoso Sobrinho, que excomunhou os médicos que realizaram o aborto no episódio da menina estuprada pelo pai ganhou repercussão internacional. Para o filósofo francês Michel Onfray, decisão é coerente com pensamento oficial da Igreja Católica de hoje. "A ideologia da Igreja é reacionária, conservadora e insuportável. A Igreja apresenta indignações seletivas. Durante e após a II Guerra Mundial, ela excomungou todos os comunistas e nunca excomungou um único nazista", critica Onfray.

O filósofo francês Michel Onfray, iniciador da Universidade Popular de Caen , autor de 51 livros, traduzidos em mais de 20 línguas, e de uma coleção de 12 CDs, aposta na Filosofia como meio de vencer o lado irrracional do ser humano: "Apesar do sofrimento da existência humana, que sempre existiu e existirá, é preciso viver em pé, com dignidade e não ajoelhado. O filósofo tem a obrigação de construir um movimento universal de elevação da condição humana".

Por ocasião da sua passagem por Bordeaux, para o lançamento de seu último livro, "Contra-história da Filosofia: as radicalidades existenciais" , Michel Onfray nos concedeu uma entrevista sobre o lastimável episódio do aborto terapêutico, ocorrido em Recife.

Marta Fantini: O sofrimento de uma família, que deveria permanecer na esfera privada, acabou se tornando um evento midiático de repercursão internacional, devido a uma punição da Igreja Católica que parece sair das "entranhas da Idade Média": a excomunhão.

Michel Onfray: A decisão parece da Idade Média, mas ela está inscrita no corpus do pensamento oficial da Igreja de hoje. Não se pode ignorá-la: a Igreja diz claramente que o aborto é proibido, que é um pecado e o clero aplica o que a Igreja professa. Na minha opinião, não há incoêrencia entre a excomunhão, que é insignificante, e a ideologia da Igreja, que é reacionária, conservadora e insuportável.

A Igreja apresenta indignações seletivas. Durante e após a II Guerra Mundial, ela excomungou todos os comunistas e nunca excomungou um único nazista. Hitler nunca foi excomungado assim como os ideólogos do nazismo e os membros do partido. A Igreja somente demonstra o que ela foi e é, colocando-se sempre ao lado dos fortes, dos poderosos, da colaboração. Ela não resiste. Ela não se preocupa com os pobres. Ela não demonstrou misericórdia a este ser frágil que foi violentado pelo padrasto. Ela não apoiou esta menina. Ao contrário, ela ainda a afligiu, considerando-a até culpada e responsável.

Eu li na imprensa francesa que, para o bispo de Recife, o estrupo é menos grave que o aborto. Quando alguém lhe perguntou porque o padastro não foi excomungado, ele respondeu que "dar a morte é mais grave". Dar a morte a um feto é mais grave que o estupro e a pedofilia? O feto é um ser potencialmente vivo que está programado para se tornar uma pessoa, mas não é uma pessoa. Antes que se torne um ser humano, pode-se praticar o aborto, e sobretudo, nestas condições, parece-me um ato evidente.

MF : Como explicar esta insistência em preservar a vida se, por outro lado, a Igreja sempre legitimou a violência dos Estados?

MO: Ela pretende defender a vida, mas ela não a defende. Onde está a dignidade nesta aventura? O que se pode chamar de vida? Onde ela se encontra? Numa manifestação biológica? Neste caso a simples ejaculação, na hora da masturbação, é um genocídio! É preciso parar com isso. O espermatozóide é matéria viva. Neste caso, ela deveria excomungar todos os homens que se masturbam, pois os espermatozóides vão terminar no fundo de um vaso sanitário e não na destinação prevista que é a fecundação do óvulo! É um delírio total esta posição da Igreja que se diz defensora da vida e, ao mesmo tempo, justifica a pena de morte no "Catecismo da Igreja Católica".

Eu até ganhei uma caixa de champanhe numa aposta com alguém que não acreditava que isso fosse possível! No "Catecismo da Igreja Católica" está escrito, explicitamente, que, em alguns casos extremos, pode-se aplicar a pena de morte. Sinto muito, é uma questão de princípio: não se defende a pena de morte quando se é cristão. E ainda querem que acreditemos que defendem a vida quando se defende, ao mesmo tempo, a pena de morte?

A Igreja defendeu a vida ao dar a bênção às bombas atômicas que explodiram em Hirocsima e Nagasaki? Ela defendeu a vida ao dar a bênção às armas que serviram para assassinar os republicanos espanhóis durante a Guerra da Espanha?. A Igreja pretende defender a vida, mas o que ela defende é o poder em vigor. Na verdade, o que fascina a Igreja é a morte. É a morte que lhe interessa.

MF: O que a imprensa francesa não citou, nos inúmeros artigos sobre este trágico evento, é que a Igreja, no Brasil, enfrenta uma queda de braço com o Estado. A República democrática brasileira se moderniza: a pesquisa sobre as células troncos foi liberada, a legalização do aborto está em discussão, a população se beneficia da distribuição gratuita de preservativos e pílulas do dia seguinte. Como explicar que esta Igreja, que não consegue acompanhar a evolução dos costumes morais e o progresso da Ciência, está se tornando cada vez mais fundamentalista?

MO : A questão não é o que ela está se tornando, o problema é que ela sempre foi e é fundamentalista. Acredito que, ultimamente, a Igreja está tentando colocar as coisas no seu eixo original. Com o recente retorno do islamismo, no mercado intelectual, ideológico e espiritual, ela diz que nem tudo está perdido para as religiões. Ela constata que, finalmente, ainda existem pessoas que acreditam em Deus e que em nome de Alá são capazes de morrer por ele, de lutar por ele, de viver por ele, que se comportam, na existência de uma vida cotidiana, de acordo com os preceitos que teriam sido ditados por ele. Penso que a Igreja está numa lógica de reconquista e que é o momento ideal de avançar seus peões. O papa Bento XVI, começou a avançá-los, por exemplo, com a reabilitação dos bispos negacionistas. Quando percebeu que esta estratégia estava provocando muito debate na imprensa internacional, ele recuou.

Acredito que há uma espécie de desejo de reconquistar a fé em escala planetária. Eu li no Le Figaro, o único jornal disponível no hotel, uma página inteira consagrada ao Papa e à carta que ele enviou aos bispos. Ele cita que o desejo de São Pedro era fazer proselitismo. O cristianismo e o número 1 dos cristãos, Bento XVI, concluem: se o Islã faz proselitismo e obtem resultados positivos, porque a Igreja Católica também não o faria? É uma maneira de reconquistar o terreno perdido, em todos os países.

É o que aconteceu na Itália. Recentemente, houve uma eleição ultra politizada, uma espécie de referendum sobre a questão do aborto, do reembolso deste tipo de intervenção, de células troncos, etc. A Igreja pediu a abstenção. Uma boa tática que se revelaria na hora da contagem dos votos, uma prova que a abstenção seria a Igreja, com um número considerável de vozes. A era de João Paulo II, da mediatização do tipo «rock star» e das viagens planetárias, terminou. O eucumenismo, da época em que se dançava com os aborígines, na Austrália, como pretexto de comunhão com o sagrado, tudo isso acabou. O único objetivo da Igreja atual é o retorno à antiga boa fé católica apostólica romana. Neste período de niilismo generalizado, ela se impõe uma posição mais rígida. A suspensão da excomunhão dos bispos negacionistas, o que se passou na Itália e no Brasil, são, para mim, sinais convergentes.

MF : Com a crise, o fundamentalismo pode piorar no seio das três grandes religiões monoteístas? A micro resistência, à qual você sempre faz alusão, não seria uma esperança como foi a Teoria da Libertação ou os Movimentos Pastorais na América Latina?

MO: As microresistências são a única solução possível. Eu penso que há cristãos que não estão de acordo com esta opção de direita à extrema direita da Igreja. Na “Golias”, uma excelente revista, publicada por católicos franceses de esquerda, pode-se encontrar artigos extremamente inteligentes. No último número, por exemplo, publicaram análises interessantes sobre o caso do bispos negacionistas. Há sempre uma categoria de católicos de esquerda com a qual se pode contar. Há sempre alguém que não aceita o inaceitável, que não se submete. Há esta esperança e há também a esperança no avanço do combate ateu.

Nos Estados Unidos e na Inglaterra as obras sobre o ateísmo fazem muito sucesso. «O Tratado da Ateologia» foi best seller na Austrália, Espanha e Itália, quer dizer, se fizermos avançar o combate ateu, obteremos soluções. Evidentemente, sem repetir o erro do «ser ateu» do século XIX: anticlerical , mas fabricante de uma espécie de igreja atéia, de clero ateu. Seria o pior que poderia acontecer, ou seja, querer destruir, utilizando os mesmos métodos. É preciso avançar argumentos, debater questões como as dos tratamentos paliativos, da eutanásia… A França está com muito atraso em relação a estes assuntos. Porque a eutanásia não avança, mas sim os tratamentos paliativos? Porque o lobby cristão é potente para interferir nas decisões dos deputados e dos senadores e impedir que a lei sobre a eutanásia seja votada.

MF: Seus livros estão traduzidos em mais de vinte línguas e a venda de seus CDs atingiram 50 mil exemplares. Parece-me um número impressionante, em se tratando de conteúdo filosófico. Este sucesso seria a prova que a Filosofia preenche um vazio deixado pela religião que já não satisfaz a busca espiritual do ser humano do século XXI ?

MO: Minha proposta é sair da era religiosa e teológica para entrar na era filosófica. É preciso parar de projetar a vida em universos inexistentes para construir a sua existência. Devemos nos contentar com este mundo real, examinar o que podemos fazer de nossas existências nesta vida que é pós moderna, pós industrial, pós fascista, pós comunista e pós cristã, seguramente. O que podemos fazer num período de niilismo? Somente a Filosofia poderá trazer as respostas. Gostaria que os livros de catecismo fossem substituídos, nas escolas, por ateliers de Filosofia, gostaria que todos nós refletíssemos juntos para, pelo menos, provocar a vontade de adquirir conhecimento. Sobretudo para aqueles que ficaram às margens, pois um dia, alguém disse que a Filosofia não era para eles; que ela foi feita para a elite, para a aristocracia e quem não fizesse parte dela, não teria direito a ela.

O desejo da filosofia é o desejo da sabedoria, da necessidade de ética, de reflexão e de moral. Almejo uma Filosofia que esclareça, que simplifique sem se empobrecer. Quando me deparo, nos meus cursos da Universidade Popular de Caen, com anfiteatros lotados, com mais de mil pessoas, com transmissão em vídeo no saguão, para aqueles que não conseguiram entrar, eu constato que é possível, que a Filosofia poderá vencer o irracional.

Marta Fantini é produtora e apresentadora do programa “Le Brésil en Noir & Blanc”, na Rádio Campus Bordeaux, França.

domingo, 15 de março de 2009

http://www.mst.org.br/mst/pagina.php?cd=6332

Organizações repudiam declarações de Gilmar Mendes

27/02/2009

O Fórum Nacional pela Reforma Agrária e Justiça no Campo - FNRA, vem contestar as declarações carregadas de preconceito e rancor de classe do presidente do Supremo Tribunal Federal - STF, Gilmar Mendes, e apoiadas pelos Presidentes do Senado Federal, e da Câmara dos Deputados, contra os movimentos sociais e sindicais do campo. Ao longo da historia da luta pela terra no Brasil, a atuação dos movimentos tem sido inspirada pela garantia dos direitos humanos, em especial o direito à vida, à dignidade dos homens e mulheres do campo e o direito e a necessidade de realização de uma reforma agrária massiva, que contemple uma ampla e justa distribuição de terras.

Lastimamos que o Presidente do STF, que é o guardião da Constituição Federal, não tenha incorporado à história de luta das classes populares nacionais. Em declaração recente a imprensa, o Ministro, em uma atitude revoltosa, coloca no mesmo patamar diferentes situações como as ocupações de terras, convênios e contratos assinados entre organizações e governo, questiona as autoridades responsáveis pelo repasse de verbas e pede a punição por crime de responsabilidade.

Nunca a sociedade brasileira ouviu do Ministro uma condenação aos grupos de latifundiários armados no campo ou a concessão de financiamentos públicos aos grandes grupos econômicos, que tem provocado o trabalho escravo, chacinas contra populações tradicionais e crimes ambientais. Dessa forma, o senhor Ministro Gilmar Mendes, estimula o processo de criminalização dos movimentos sociais e sindicais, unindo e fortalecendo politicamente os setores que atuam no sentido contrario à consolidação de uma sociedade livre, organizada e democrática.

A luta pela reforma agrária não vai recuar diante de declarações imponderadas como esta do ministro Gilmar Mendes. Ao contrario, fortalece a luta do FNRA contra as legislações que institucionalizam a criminalização das organizações, contra as leis que impedem as legitimas ocupações e A FAVOR da emenda constitucional que limita o tamanho da propriedade rural e pela assinatura da Portaria que atualiza os índices de produtividade.

Atualmente existem cerca de 250 mil famílias de sem-terras acampadas nas beiras das estradas. Os recursos orçamentários da União destinados para a reforma agrária não dão conta desta demanda, apesar de estar comprovado que o Estado possui recursos suficientes para realizar a reforma agrária em menos de três anos. Adiar este processo significa promover e estimular a violência no campo, colocando em risco a vida de milhares de famílias brasileiras.

E lamentável quando lemos e ouvimos o Presidente do Supremo Tribunal Federal apelar para Medidas Provisórias e legislações recentes sobre a reforma agrária, quando a Constituição Federal assegura aos cidadãos e cidadãs o direito à terra aos que nela trabalham, a moradia e a uma vida digna. O papel do FNRA é exigir do Estado o efetivo cumprimento da função social da propriedade da terra, para que dela os brasileiros e brasileiras tirem seu sustento.

As lideranças dos diferentes movimentos reunidos em Salvador durante o Seminário Nacional pela Campanha do Limite da Propriedade da Terra não se sentem ameaçadas pelas palavras do Ministro Gilmar Mendes. Pelo contrario, se sentem desafiadas e estimuladas a renovar suas alianças e dar continuidade à luta histórica em nome dos companheiros e companheiras que tombaram nesta caminhada.

Pela Reforma Agrária e Justiça no Campo, já!

Fórum Nacional pela Reforma Agrária e Justiça no Campo - FNRA


ENTIDADES QUE COMPÕEM O FNRA:

CONTAG – MST – FETRAF Brasil - CUT - CPT – CÁRITAS BRASILEIRA – MMC – MPA – MAB - CMP - CONIC – CONDSEF – Pastorais Sociais da CNBB - MNDH – MTL – ABRA – ABONG - APR – ASPTA – ANDES – Centro de Justiça Global - CESE – CIMI – CNASI – DESER – ESPLAR – FASE – FASER – FEAB – FIAN-Brasil – FISENGE - IBASE – IBRADES – IDACO – IECLB - IFAS – INESC – MLST – PJR – REDE BRASIL sobre Instituições Financeiras Multilaterais – Rede Social de Justiça e Direitos Humanos - RENAP – SINPAF – TERRA DE DIREITOS – EMPÓRIO DO CERRADO – COIABE – ABRANDH – ABEEF - Comissão de Justiça e PAZ – Grito dos Excluídos – Jubileu Sul/Brasil – Mutirão Nacional pela Superação da Miséria e da Fome.

Absurdo!

Folha de São Paulo, 12/03/09
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc1203200925.htm
General deixa posto no Rio com elogios ao golpe militar de 1964

Último aspirante a oficial em 1964 a deixar a ativa, Luiz Cesário da Silveira Filho classificou episódio de "revolução democrática"

Comandante do Exército diz que general só manifestou seus "sentimentos"; Luiz Cesário também criticou a estratégia de Nelson Jobim


RAPHAEL GOMIDE
DA SUCURSAL DO RIO

Comandante substituído ontem do Comando Militar do Leste, o general Luiz Cesário da Silveira Filho despediu-se do cargo com um discurso exaltando o golpe militar que depôs o presidente João Goulart, em 1964, ao qual classificou de "memorável acontecimento".
O general Rui Alves Catão assumiu ontem o CML, que abrange as tropas no Rio, Minas Gerais e Espírito Santo. Segundo o general Enzo Peri, Cesário apenas "manifestou a participação dele como cadete": "É o sentimento que tem. O movimento de 31 de março de 64 pertence à história".
Na presença do comandante do Exército, Enzo Peri, Cesário narrou sua participação na "histórica operação cívico-militar": "Participei ativamente da revolução democrática de 31 de março de 64, ocupando posição de combate no Vale do Paraíba". Então cadete do último ano da Academia Militar das Agulhas Negras, Cesário disse ter atuado sob "a incontestável liderança do general-de-brigada Emílio Garrastazu Médici, de patriótica atuação posteriormente na Presidência".
Segundo o general, a ação dos militares pode ser chamada de "revolução democrática de 31 de março de 1964, por ter evitado o golpe preparado pelo governo de então contra as instituições democráticas do país".
Como último aspirante de 1964 a deixar o serviço ativo, ele homenageou os colegas de turma e disse que "seus exemplos serão lembrados". "Rendo minha homenagem àqueles que, junto comigo, magnetizados pela liderança de nosso comandante (...), não titubearam diante da possibilidade de verter seu próprio sangue, (...) sem se importar em sacrificar sua juventude e as esperanças em prol do direito maior da pátria."
O ex-comandante do CML citou trecho da ordem do dia em que o general Emílio Médici elogiou os cadetes: "Que, por isso, a história pátria lhes reserve uma página consagradora (...). Cadetes: pela história, atingis os umbrais da glória."
Ele concluiu seu pronunciamento dizendo: "Não sou eu que pertenço ao passado. O passado é que me pertence".

Críticas a Jobim
Na solenidade, Cesário também afirmou que o Exército hoje passa por "dias de inquietude e incerteza", numa referência crítica à Estratégia Nacional de Defesa elaborada pelos ministros Nelson Jobim (Defesa) e Roberto Mangabeira Unger (Assuntos Estratégicos) para suprir as debilidades do sistema de defesa brasileiro.
O general havia, em texto e em reunião do Alto Comando neste mês, qualificado de "utópica" a Estratégia Nacional de Defesa, que segundo ele fortalece o Ministério da Defesa e enfraquece as Forças Armadas. Ontem, ele reforçou o ataque.
"Tenho levado minha preocupação ao Alto Comando do Exército. Vivemos atualmente dias de inquietude e incerteza. (...) Tenho a convicção de que o nosso Exército saberá, como sempre, contornar tão graves inquietações e continuará, a despeito de qualquer decisão, protegendo a nação do estrangeiro e de si mesma."
Desde o ano passado, o general também mantém no site do CML mensagem de solidariedade a militares que se opuseram a "agitadores e terroristas de armas na mão" -uma resposta à defesa do ministro da Justiça, Tarso Genro, que defende a punição dos torturadores da ditadura militar.
Ele também se disse indignado com a concessão da patente de coronel ao guerrilheiro da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) Carlos Lamarca, a quem chamou de "assassino".

domingo, 11 de janeiro de 2009

Folha de São Paulo, 11/01/09
http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u488764.shtml
11/01/2009 - 16h19

Anistia Internacional pressiona Obama para fechamento de Guantánamo

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colaboração para a Folha Online
da France Presse e Efe

A Anistia Internacional (AI) pediu neste domingo, em Madri, na Espanha, para que o presidente eleito, Barack Obama, formule uma data e um plano para fechar em breve a prisão de Guantánamo.

Sergio Barrenechea/Efe
Ativistas organizam manifestação em frente a Embaixada dos Estados Unidos para pedir o fechamento do Guantánamo
Ativistas organizam manifestação em frente a Embaixada dos Estados Unidos para pedir o fechamento do Guantánamo

Diante da pressão, Obama afirmou que não acredita que poderá cumprir sua promessa de campanha de fechar a prisão da base de Guantánamo (Cuba) em seus primeiros 100 dias de governo, embora reiterou sua intenção de fazê-lo em algum momento.

"É muito mais difícil do que muita gente acredita", disse Obama em entrevista emitida neste domingo pelo canal ABC, interrogado sobre sua promessa de fechar a prisão, onde estão cerca de 250 suspeitos de terrorismo, a maioria sem julgamento, acusação nem acesso a advogados.

O pedido da AI foi formulado pela organização de Defesa dos Direitos Humanos em uma concentração diante da Embaixada dos Estados Unidos. Ao ato, compareceram cerca de 20 pessoas, que realizaram um protesto silencioso diante da sede diplomática americana por ocasião do sétimo aniversário da chegada do primeiro grupo de prisioneiros ao tribunal que os EUA têm em Cuba.

Quatorze ativistas da AI formaram primeiro a frase "Bye Guantánamo", com máscaras nas quais havia desenhado um sorriso, para depois perguntarem "¿Como? e Quando?".

O diretor da AI na Espanha, Esteban Beltrán, explicou aos jornalistas que, além de um plano e de uma data para desmantelar Guantánamo, a organização pediu a Obama que se envolva na criação de uma comissão internacional para investigar os abusos que os EUA cometeram na guerra contra o terror nos últimos sete anos.

"Não pode haver impunidade", disse Beltrán, que também afirmou que a AI se dirigiu ao próximo presidente dos EUA para pedir a ele uma ordem executiva que proíba a tortura e os maus tratos.

A Anistia Internacional também reivindicou ao governo espanhol e à União Europeia "proteção internacional" para os cerca de 50 prisioneiros de Guantánamo que, segundo os EUA, não estão acusados formalmente de nada "e não representam nenhum perigo".

Esteban afirmou ainda que os Governos europeus devem colaborar no fechamento da prisão dando proteção aos presos que não podem retornar para seus países de origem por terem as vidas colocadas em risco.

Segundo a AI, pela prisão de Guantánamo passaram nestes sete anos cerca de 800 prisioneiros, dos quais 520 foram colocados em liberdade, "a maioria sem acusações nem juízos posteriores", e apenas 26 foram levadas a tribunais militares dos EUA "em juízos injustos".

A organização estudou os casos de cerca de 500 presos e, deles, diz que apenas 5% foram detidos pelas forças americanas, enquanto a maioria das detenções foram realizadas pelo Paquistão e pela Aliança do norte do Afeganistão.

Segundo a AI, em Guantánamo há ainda cerca de 250 presos, dos quais 178 estão no campo número 6, onde as condições de detenção são piores e, pelo menos, passam 22 horas por dia em celas.

God save the queen

Folha de São Paulo, 10/01/09
http://www1.folha.uol.com.br/folha/bbc/ult272u488675.shtml
10/01/2009 - 22h37

Príncipe Harry pede desculpas por comentários racistas

da BBC Brasil

O príncipe Harry, terceiro na linha de sucessão do Reino Unido, pediu desculpas pelo uso de linguagem ofensiva ao descrever um membro de seu pelotão do exército em um vídeo filmado três anos atrás.

Segundo a edição deste domingo do jornal britânico "News of the World", o príncipe chamou um colega de "Paqui" --termo pejorativo usado para descrever paquistaneses no Reino Unido-- enquanto fingia fazer uma ligação telefônica para a rainha Elizabeth, sua avó.

David Cheskin/Reuters
Príncipe Harry, terceiro na linha de sucessão do Reino Unido, se desculpou por comentários
Príncipe Harry, terceiro na linha de sucessão do Reino Unido, se desculpou por comentários

Uma declaração do Palácio de St. James afirmou que os comentários foram feitos sem malícia, há três anos, descrevendo um amigo.

Em 2005, o príncipe Harry teve que pedir desculpas depois de usar uma suástica nazista em uma festa à fantasia, causando ofensas aos que foram vitimados pelo Holocausto.

O vídeo descrito pelo "News of the World" mostraria Harry como um oficial cadete na academia militar de Sandhurst.

Ele foi filmado em frente de outros cadetes no saguão de embarque de um aeroporto, enquanto os militares aguardavam um vôo para Chipre.

Segundo o jornal, o príncipe se referiu ao outro cadete como "nosso amiguinho paqui" e também teria usado um termo pejorativo para descrever outro oficial cadete de origem árabe --raghead que, em inglês, quer dizer algo como "alguém que usa um pano na cabeça".

O termo, normalmente, é usado para descrever combatentes iraquianos ou do Talebã.

Segundo a declaração do Palácio St. James, "o príncipe Harry entende totalmente o quão ofensivo este termo pode ser e está extremamente sentido por qualquer ofensa que suas palavras possam causar".

"Mas, nesta ocasião três anos atrás, o príncipe usou o termo sem malícia e como um apelido para um membro extremamente popular de seu pelotão." O palácio afirma que não houve qualquer intenção de ofender seu amigo.

Um porta-voz do Ministério da Defesa disse que "nem o Exército nem as Forças Armadas toleram comportamento inapropriado em qualquer forma".

"O exército leva todas as alegações de comportamento inapropriado muito a sério e todas as alegações substanciais são investigadas."

"Não estamos cientes de que nenhuma queixa tenha sido apresentada pelo indivíduo. Intimidação e racismo não são endêmicos nas Forças Armadas", afirma a declaração.