domingo, 20 de setembro de 2009

Folha de São Paulo, 20/09/09
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz2009200909.htm
Dia Mundial Sem Carro
ODED GRAJEW



São graves os problemas causados pelo modelo de mobilidade que privilegia o transporte individual e o automóvel


NO DIA Mundial Sem Carro, 22 de setembro, diversas atividades (programação no site www.nossasaopaulo.org.br) visam chamar a atenção da sociedade sobre os graves problemas causados pelo modelo de mobilidade adotado nas cidades que privilegiam o transporte individual e o automóvel.
Nesse modelo, o trânsito das grandes e médias cidades brasileiras ocupa um tempo precioso de todos os que nelas vivem, estudam e trabalham -o paulistano desperdiça, em média, duas horas e 43 minutos todos os dias nos congestionamentos. Tempo que poderia ser usado para o lazer, a cultura, para namorar, para estar com amigos e familiares.
Não bastasse todo esse tempo perdido, ainda ficamos expostos a um trânsito totalmente poluído, causando tumores e inúmeras doenças respiratórias e cardiovasculares. Estudos da Faculdade de Medicina da USP apontam que, apenas na cidade de São Paulo, morrem, em média, 12 pessoas por dia devido à poluição, encurtando a vida média do paulistano em um ano e meio.
Além do custo em vidas, os impactos operacionais e financeiros no sistema de saúde causados pela poluição são imensos. No mesmo sentido, é importante lembrar que o setor de transportes é responsável por 15% dos gases que causam o aquecimento global e a mudança climática.
O diesel e a gasolina consumidos no Brasil estão entre os piores do mundo, e a indústria automobilística fabrica motores menos poluentes apenas para exportação. Apesar disso, tramita no Congresso um projeto de lei que permite a comercialização no Brasil de carros leves a diesel.
Com a qualidade atual do diesel brasileiro (contendo altíssima quantidade de enxofre) e a tecnologia dos motores que a indústria automobilística utiliza no Brasil, a aprovação dessa lei resultaria na morte adicional de milhares de brasileiros por ano.
A inspeção veicular, obrigação dos governos estaduais e dos grandes municípios, ainda está muito longe de cumprir seu papel.
Nos acidentes de trânsito, morrem cerca de quatro pessoas por dia na cidade de São Paulo -44% pedestres, 18% motociclistas, 9% passageiros ou motoristas de autos e 3% ciclistas.
Nos últimos cinco anos, o Departamento Nacional de Trânsito teve à disposição R$ 415 milhões (provenientes das multas) para investir em projetos de redução de acidentes. Só R$ 5,3 milhões foram repassados!
Estudo da FGV calcula que a cidade de São Paulo deixa de gerar R$ 26,8 bilhões por ano devido à perda de tempo nos congestionamentos e aos custos totais ligados a acidentes e doenças derivados do trânsito.
Muitos fatores alimentam esses números sinistros. Nosso modelo de desenvolvimento urbano promove enorme desigualdade social, que obriga milhões de pessoas a se locomoverem por grandes distâncias para ter acesso ao trabalho e aos serviços e equipamentos públicos. Vivemos, cada vez mais, um modelo de mobilidade e transporte que oferece todos os incentivos possíveis para a locomoção por meio do automóvel.
Enquanto isso, os investimentos em transporte público coletivo continuam se arrastando lentamente.
Bilhões de reais que poderiam melhorar imediatamente o transporte público são gastos em túneis, novas pistas e avenidas que em pouco tempo estarão entupidas (são 800 novos carros por dia nas ruas de São Paulo!).
O governo federal promove incentivos fiscais e creditícios para a indústria automobilística sem a contrapartida de motores menos poluentes e matriz energética mais limpa.
Para mudar esse quadro, não faltam exemplos e propostas: dar prioridade absoluta para metrô, trens e corredores de ônibus; estabelecer políticas para facilitar e incentivar a locomoção por bicicletas; melhorar a qualidade do diesel e da gasolina e incrementar o uso de combustíveis mais limpos; comercializar no Brasil automóveis, ônibus e caminhões com a mesma tecnologia menos poluente que a indústria automobilística utiliza na Europa e nos EUA; oferecer segurança para o pedestre, calçadas de boa qualidade, acessibilidade universal para os deficientes físicos, rigor nas leis de trânsito e programas de educação cidadã; implementar inspeção veicular em toda a frota automobilística; redimensionar os investimentos públicos para diminuir a desigualdade social e regional na oferta de trabalho e no acesso a equipamentos e serviços públicos para diminuir a necessidade de deslocamentos.
Cabe à sociedade convencer os governos a priorizar, acima de localizados e poderosos interesses econômicos, a qualidade de vida dos cidadãos.


ODED GRAJEW , 65, empresário, é um dos integrantes do Movimento Nossa São Paulo e membro do Conselho Deliberativo do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social. É idealizador do Fórum Social Mundial e idealizador e ex-presidente da Fundação Abrinq. Foi assessor especial do presidente da República (2003).
http://www.guardian.co.uk/education/2009/sep/20/facebook-bullying-holly-grogan-suicide

Bullied girl's parents warn of 'huge pressures' of Facebook

The parents of a 15-year-old public schoolgirl who jumped to her death after being bullied on Facebook have spoken of the "huge pressures" placed on young people by social networking sites.

Holly Grogan died after plunging 30ft from a road bridge near her home on to a dual carriageway, where she was hit by passing traffic. She was found at 11pm on Wednesday under a bridge in Churchdown, Gloucestershire, two miles from her home.

Steve Grogan, 45, and his wife Anita, 44, from Longlevens, Gloucester, said they were devastated by the death of their "wonderful" daughter, which followed the posting of dozens of abusive and humiliating messages on her Facebook wall.

Her family said in a statement: "Holly struggled to cope with the huge pressures placed upon her by the modern complexities of 'friendship groups' and social networking."

It added that they were "sure every responsible parent will empathise with our constant battle to instil self-belief and confidence in our children. Holly's outwardly vivacious zest for life was apparent to all who knew her."

It emerged that Holly, who went to £11,600-a-year St Edward's school in Charlton Kings, Gloucestershire, had been subjected to months, if not years, of cyber-bullying.

A friend, Chloe Davis, 16, said Holly had moved to the fee-paying Catholic school in the past year in an attempt to escape her tormentors. She said: "Holly was nice and had the biggest smile in the world. She always did well at school but the other girls used to pick on her. She didn't have any confidence, that was the problem.

"Girls used to gang up on her and call her names and she didn't have anything to say back. She just froze up. They used to leave comments on her Facebook wall, calling her names."

The family statement said they had chosen the school "in the belief that the morals and values promoted by the school would provide Holly with a platform to the next stage of her life".

Chloe spoke of rumours that bullies at Holly's previous school had urged their friends at her new school to continue their abusive behaviour.

Dozens of tributes to Holly were posted on a local newspaper website and on an online tribute page. Her 17-year-old brother, Tom, wrote that her family "loved to her bits". Her cousin, Laura, said: "She was a beautiful girl with a beautiful family and had some wonderful times with so many people, clearly touching so many people's lives."

A Gloucestershire police spokesman said: "A formal identification and a post-mortem examination are now in the hands of the coroner. We are appealing for any witnesses to come forward." Holly's death is not being treated as suspicious.

St Edward's headteacher Andrew Nash said the school was in "shock" but refused to speculate on whether staff had been aware of the bullying.

Deputado Chico Leite afirma: Em 2009, o Governo do Distrito Federal gastou R$ 47 milhões com festividades e comemorações. Já com saúde, foram apenas R$ 13,1 milhões, e com segurança pública R$ 18,6 milhões.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Folha de São Paulo, 18/09/09
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff1809200926.htm
DESAFIO INTERMODAL DE SP

Bicicleta chega mais rápido que helicóptero

DA REPORTAGEM LOCAL

A bicicleta venceu ontem a disputa com carro, moto, helicóptero e transporte público na quarta edição do desafio intermodal. O evento faz parte da programação do Dia Mundial Sem Carro, no dia 22.
Para cruzar os 10 km entre a av. Luiz Carlos Berrini, na zona sul, e o viaduto do Chá, no centro, o jornalista Milton Jung, da rádio CBN, levou 33 minutos em um helicóptero. O ciclista vencedor fez o trajeto em 22 minutos. O competidor que foi de automóvel levou uma hora e 22 minutos.

domingo, 13 de setembro de 2009

Folha de São Paulo, 13/09/09
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz1309200909.htm
TENDÊNCIAS/DEBATES

Superação de um mito via educação

VINCENT DEFOURNY


Último país a abolir a escravidão negra, o Brasil demorou mais de um século para começar a questionar o mito de democracia racial


ÚLTIMO PAÍS a abolir a escravidão negra, em 1888, e com a segunda maior população negra mundial, menor apenas que a da Nigéria, o Brasil demorou mais de um século para começar a questionar o mito de democracia racial, principal combustível do racismo velado e ainda presente na sociedade brasileira.
Só a partir dos anos 1990, fruto de reivindicações dos movimentos sociais, o Estado brasileiro reconheceu a relevância da questão étnico-racial para a superação dos problemas sociais, desenvolvendo uma série de ações e programas que hoje colocam o país em posição destacada no cenário internacional.
A escolha da política educacional como eixo central nessa nova conjuntura sinaliza uma possível mudança substantiva das relações étnico-raciais na sociedade.
A agenda étnico-racial brasileira teve seu ponto de inflexão na participação do Brasil na 3ª Conferência Mundial contra Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata da Unesco, em Durban, realizada em 2001.
Após a conferência ampliaram-se os espaços de implementação de políticas públicas inovadoras para a eliminação das desvantagens sociais enfrentadas especialmente pelos afrodescendentes, com a criação da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade, no MEC, e da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial.
É também a partir de Durban que as universidades brasileiras passam a implementar programas de ações afirmativas, tais como as cotas raciais.
Para a Unesco, o marco histórico dessa nova trajetória foi a promulgação, em 2003, da lei 10.639, que alterou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional e tornou obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana nas escolas de ensino fundamental e médio.
A lei estabelece que o conteúdo programático inclua a história da África e dos africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e a sua importância na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política.
A lei contribui para a construção de um novo pacto social por meio do qual a valorização formal da cultura negra é reconhecida como uma das matrizes da sociedade brasileira.
Não se trata apenas da introdução de conteúdos no currículo escolar, mas de um instrumento para mudar concepções e práticas pedagógicas que estruturem novas relações na escola e na sociedade.
Por isso é importante que a lei saia do papel e vire uma prática. Apesar do esforço de alguns Estados e instituições, a sua aplicação ainda não é uma realidade na rede de ensino do país devido a problemas como a falta de materiais didáticos adequados e a fragilidades na formação docente.
Duas importantes iniciativas, realizadas por meio de cooperação internacional com a Unesco, certamente contribuirão para a efetiva aplicação da lei nas práticas pedagógicas em sala de aula, promovendo um ensino mais coerente com a importância da cultura negra na história brasileira, evitando a imagem racializada e eurocêntrica do continente africano.
A primeira delas é o lançamento, em diferentes regiões brasileiras, do Plano Nacional de Implementação das Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino da História e Cultura Afro-Brasileira e Africana.
Em novembro próximo, no marco da comemoração do Dia Nacional da Consciência Negra, serão lançados dois volumes da versão em língua portuguesa da Coleção História Geral da África, publicada pela Unesco após um trabalho desenvolvido durante 30 anos com a contribuição de 350 especialistas e 39 intelectuais, sendo dois terços africanos. Trata-se do primeiro estudo contado a partir da visão de pesquisadores nativos.
Espera-se que a coleção contribua para o desenvolvimento da educação mais focada na diversidade cultural como um valor, contribuindo assim para a ressignificação da contribuição africana na nossa história.
As mudanças no currículo escolar são ações de grande relevância, mas sabemos que só será possível atingir a utopia da democracia racial e da igualdade social, tão almejada pelo Brasil, se pudermos construir uma história comum e firmar as bases de um diálogo intercultural genuíno, capaz de transmitir uma mensagem universal de respeito às diferenças, como bem lembrou o diretor-geral da Unesco, Koïchiro Matsuura, em mensagem por ocasião do Dia Internacional de Lembrança do Tráfico de Escravos e sua Abolição, comemorado em 23 de agosto.


VINCENT DEFOURNY, 49, doutor em comunicação pela Universidade Católica de Louvain, Bélgica, é representante da Unesco no Brasil (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura).

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Folha de São Paulo, 10/09/09
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz1009200908.htm
Texto Anterior | Próximo Texto | Índice

TENDÊNCIAS/DEBATES

Enxugar a Constituição é um retrocesso

SONIA FLEURY e JOSÉ MORONI


A situação atual de tranquilidade e liberdade é fruto exatamente das garantias previstas no texto constitucional

EM ARTIGO publicado neste espaço, os deputados Regis Fernandes de Oliveira e Sérgio Barradas Carneiro, autor e relator da PEC 341/09, defenderam a redução do texto constitucional, sob a alegação de que "a esperança depositada nesse instrumento está sendo solapada pela ineficácia de suas normas" ("É preciso "enxugar" a Constituição", "Tendências/Debates", 17/8).
Sob os argumentos de que o Brasil vive um período de tranquilidade e liberdade, que as instituições funcionam regularmente e a economia flui sem sobressaltos, justificam a proposta dizendo que a Constituição respondeu a outro momento histórico, pós-ditadura, no qual havia necessidade de colocar direitos e políticas públicas no texto normativo como garantia do pacto social democrático.
A primeira falácia desse raciocínio é desconhecer que a situação atual de tranquilidade e liberdade é fruto exatamente da garantia dos direitos individuais e sociais garantidos no texto constitucional e da institucionalidade democrática ali desenhada.
A situação atual é fruto da expansão da cidadania provocada pela inclusão universal no campo das políticas sociais, dos mecanismos de participação social que criaram nova arquitetura democrática, possibilitando o controle social da ação governamental. Desconhecer isso é desconhecer a essência da Constituição de 1988.
A segunda falácia é dizer que "nenhum pacto, por mais importante que seja, é celebrado para durar eternamente". Ora, parece ser curta a memória dos nobres deputados ao esquecer as tentativas de sabotar o texto proposto pela Comissão de Sistematização da Constituinte, com a criação do Centrão.
Desde aquele momento, as forças conservadoras, que sobrevivem até hoje, tentaram invalidar o pacto democrático que emergiu de um processo constituinte considerado o mais amplamente representativo da sociedade brasileira.
Foi esse processo que assegurou um texto constitucional que expressa as contradições dessa sociedade complexa e desigual, mas que, pela primeira vez, não expressou apenas um projeto elitista de dominação.
A conhecida afirmação de que, com a Constituição de 1988, o Brasil seria ingovernável é a síntese dessa reação conservadora, que nunca se conformou com os avanços conquistados pela sociedade civil tanto na universalização das políticas sociais como no direito à participação política.
O fato de que a Constituição não tenha sido plenamente regulamentada só vem demonstrar o acerto dos constituintes que optaram por um texto mais abrangente. Questões fundamentais para o avanço do país e a consolidação democrática estão pendentes de legislação infraconstitucional.
Por exemplo: a definição de normas de cooperação entre os entes federativos (artigo 23), a iniciativa popular (artigo 14), uma fonte regular de financiamento da saúde (disposições transitórias). Esses são alguns exemplos de como a reação conservadora tem impossibilitado a evolução do sistema político brasileiro, e não o contrário, que é a Constituição de 1988 que a impede.
A argumentação de que o mundo evoluiu e, portanto, devemos adequar a Constituição à nova realidade é outra falácia, pois o texto constitucional continuou a ser atualizado por meio de emendas e ele não pode responder a conjunturas, mas a um projeto estrutural de Estado-nação.
Foi exatamente por isso que o país pôde resistir melhor à onda do pensamento neoliberal e defender seu sistema de proteção social e combate à pobreza, que, hoje, ao lado dos bancos públicos, representa recursos excepcionais no enfrentamento à crise econômica, assegurando mercado interno, investimento e inclusão social.
Por fim, o argumento que atribui os problemas de governabilidade à existência do requisito de maiorias qualificadas para alteração do texto constitucional, propondo reduzir o quórum à maioria simples, permitindo assim que o Poder Executivo forme maiorias com maior facilidade, é um atentado à democracia.
Essa proposta é profundamente reacionária e acaba com um dos contrapesos à avassaladora preponderância do Executivo sobre o Legislativo, que se expressa na exclusividade da iniciativa de legislação sobre determinadas matérias, por exemplo, no campo econômico.
Propor a redução da maioria de dois terços para maioria simples, vinda do próprio Congresso, mostra até onde chegou a capacidade de autodestruição e aviltamento de um Poder republicano. Mas a intenção é clara: os avanços sociais conseguidos em 1988 seriam facilmente derrubados.


SONIA FLEURY é professora titular da Fundação Getulio Vargas e presidente do Cebes.
JOSÉ ANTONIO MORONI é diretor da Abong (Associação Brasileira de ONGs) e do Inesc (Instituto de Estudos Socioeconômicos).

domingo, 6 de setembro de 2009

"Enquanto os professores não dedicam atenção mesmo à minha ética, persiste nas universidades o princípio moral kantiano, e entre suas várias formas a mais popular no momento é a da 'dignidade do homem'. Já expus a sua vacuidade em meu ensaio sobre o fundamento da moral (...) Se de um modo geral questionássemos em que se baseia esta pretensa dignidade do homem, a resposta em resumo seria que é sobre sua moralidade.

Por isso, desejo, em oposição à forma referida do princípio moral kantiano, estabelecer a seguinte regra: com cada pessoa com que tenhamos contato, não empreendamos uma valorização objetiva da mesma conforme valor e dignidade, não consideremos portanto a maldade da sua vontade, nem a limitação do seu entendimento, e a incorreção dos seus conceitos, porque o primeiro poderia facilmente ocasionar ódio, e a última, desprezo; mas observemos somente seus sofrimentos, suas necessidades, seu medo, suas dores. Assim, sempre teremos com ela parentesco, simpatia e, em lugar do ódio ou do desprezo, aquela compaixão que unicamente forma a ágape pregada pelo evangelho. Para não permitir o ódio e o desprezo contra a pessoa, a única adequada não é a busca de sua pretensa 'dignidade', mas, ao contrário, a posição de compaixão."
Folha Online, 06/09/09
http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u620185.shtml

Michael Moore critica bancos e empresas em seu novo filme

da Efe, em Veneza

O diretor americano Michael Moore voltou a mostrar seu lado mais ácido neste domingo, no Festival de Cinema de Veneza, com "Capitalism: A Love Story" ("Capitalismo, uma História de Amor", em tradução livre), novo documentário no qual critica, em um momento fácil de crise econômica, os bancos e as empresas multinacionais.

Moore foi recebido em meio a aplausos na sala de imprensa, onde se mostrou mais comedido do que o habitual, e, em seu curto comparecimento, apenas criticou "esse líder louco que há na Itália", em provável referência ao premiê Silvio Berlusconi, e alertou os europeus do risco de imitar os Estados Unidos.

Tony Gentile/Reuters
O diretor Michael Moore posa na exibição de seu novo "Capitalism" no Festival de Veneza
O diretor Michael Moore posa na exibição de seu novo "Capitalism" no Festival de Veneza

"Este filme é muito relevante para a Europa. Vocês estão experimentando o resultado do colapso econômico, que não é só nos EUA", disse Moore. Já que, para o americano, esse documentário é um exemplo dos danos sofridos pelo país devido ao capitalismo selvagem, "quanto mais tentarem se comportar como nós, mais difícil será para suas sociedades".

Esses efeitos do capitalismo levaram à ruína muitas famílias americanas, como reflete Moore no documentário, no qual culpa pela situação atual os ex-presidentes americanos George W. Bush (2001-2009) e Ronald Reagan (1981-1989), as multinacionais, os bancos e todos os que enriqueceram às custas dos outros.

O documentário é fiel ao estilo de Moore, com uma estrutura narrativa quase inexistente e com os golpes de efeito que cada vez se parecem mais os dos programas de televisão de câmera escondida.

Moore se alimenta dos testemunhos das pessoas que caíram em desgraça em seu país para criticar o sistema capitalista, as que perderam suas casas ou que viram a morte de seus entes queridos redundar em lucro para as empresas para as quais trabalhavam através de apólices de seguros irregulares.

Algo fácil de fazer em uma situação como a atual e após os escândalos financeiros que sacudiram o mundo e que permite que Moore se concentre em bancos como o Lehman Brothers ou Citibank, e empresas como a General Motors, alguns dos nomes mais ligados à atual crise econômica.

Tudo com as táticas frequentes dos seus documentários, que dão lugar a situações bastante cômicas --e um tanto repetitivas--, cada vez que tenta entrar em um edifício ou se reunir com um dos responsáveis bancários ou empresariais que critica. Apesar de tudo, o documentário é ágil e se deixa ver com facilidade, além de conter um bom punhado de verdades que parecem ameaçar o "sonho americano".

No entanto, Moore disse em entrevista que o bom do sonho americano é que os americanos acreditam muito em seu país e têm fé na Justiça e na democracia. "Há três ou quatro anos, se alguém tivesse dito que um afro-americano seria presidente, não teria acreditado", disse. O fato de Barack Obama estar no poder mostra "a capacidade dos americanos, mas também das pessoas de todo o mundo" para conseguir mudar as coisas, acrescentou.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

http://www.nossasaopaulo.org.br/portal/node/9055?utm_source=MailingList+03%2F09%2F09&utm_medium=email&utm_campaign=Not%C3%ADcias+03%2F09%2F09

Organizações divulgam programação do Dia Mundial Sem Carro



A edição deste ano do Dia Mundial Sem Carro, comemorado no dia 22 de setembro, será marcada por debates, protestos e diversas manifestações de rua, que vão ocorrer a partir do dia 17. As ações estão sendo organizadas por um coletivo, proposto pelo Movimento Nossa São Paulo e formado por dezenas de organizações (entre elas, Akatu, Campanha Tic Tac, Coletivo Ecologia Urbana, SOS Mata Atlântica, Respira São Paulo, Sesc e Transporte Ativo) e centenas de pessoas que já se engajaram na campanha. Qualquer cidadão pode participar das atividades propostas.

Mais do que estimular as pessoas a deixarem seus carros em casa durante um só dia, a idéia da campanha é marcar a luta por um transporte público de qualidade, por menos poluição do ar, por respeito ao pedestre, por mais ciclovias, enfim, pela mobilidade urbana.

Programação do Dia Mundial Sem Carro 2009:

17/9, quinta-feira
18h, Desafio Intermodal – Um mesmo trajeto (da Av. Eng. Luiz Carlos Berrini à sede da Prefeitura de São Paulo, na região central) será percorrido por pessoas utilizando diferentes meios de transporte (bicicleta, metrô e ônibus, carro, moto, pedestre e até helicóptero) no horário de maior congestionamento. O objetivo é avaliar quem chega mais rápido. A atividade é realizada desde 2006 e já se tornou tradicional em São Paulo. Inscrições para a atividade pelo e-mail gabriela@isps.org.br.

18/9, sexta-feira
Lançamento da 3ª edição da pesquisa Movimento Nossa São Paulo/ Ibope sobre mobilidade em São Paulo neste portal – A pesquisa aborda diversos aspectos relativos à locomoção na cidade em perguntas como: Quanto tempo você leva para se deslocar todos os dias para sua atividade principal? Caso houvesse uma boa oferta de transporte público, você deixaria de usar o carro? Com que frequência utiliza transporte público? E bicicleta? Os entrevistados também responderão perguntas que abordam temas polêmicos e recentes, como a opinião sobre a restrição aos fretados, a ampliação da Marginal Tietê, a liberação do serviço de mototáxi e a inauguração de ciclofaixa entre parques aos domingos.

Das 7h às 19h, “Vaga Viva” (esquina da R. PadreJoão Manoel e Av. Paulista, ao lado do Conjunto Nacional) – transformação de espaços de estacionamento na rua em local de convivência e práticas lúdicas. Inscrições para a atividade pelo e-mail gabriela@isps.org.br.

21/9, segunda-feira
9h às 13h, no Auditório da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, o seminário “O Impacto da Poluição na Saúde Pública” - O tema principal será o efeito do diesel com alto teor de enxofre e as consequências do não-cumprimento da resolução 315/2002 do Conama, que previa a comercialização do combustível mais limpo a partir de janeiro deste ano. Palestrantes já confirmados: Paulo Saldiva (Laboratório de Poluição da Faculdade de Medicina da USP), Hélio Mattar (Instituto Akatu), Lisa Gunn (Idec), José Ismael Lutti (Ministério Público), Eduardo Jorge (Secretaria do Verde e do Meio Ambiente), Antonio Carlos Palandri Chagas (Sociedade Brasileira de Cardiologia), Januário Montone (Secretaria Municipal de Saúde), Claudio Alonso (Cetesb), Carlos Ibsen Vianna Lacava (Secretaria Estadual do Meio Ambiente), Alfred Szwarc (ADS tecnologia e desenvolvimento sustentável). Inscrições para o debate pelo e-mail zuleica@isps.org.br.

19h30 às 21h30, em local a confirmar, seminário “A importância de um Plano Municipal de Transportes em São Paulo” - tem como objetivo principal elaborar uma proposta para o Plano de Circulação Viária e Transportes para a cidade de São Paulo. O plano está previsto no Plano Diretor Estratégico e, pela lei, deveria estar pronto desde 2006. Debatedores convidados: Ladislau Dowbor (PUC-SP, confirmado), João Lacerda (ONG Transporte Ativo, confirmado), Horácio Figueira (vice-presidente da Associação Brasileira de Pedestres e consultor da Abramet - Associação Brasileira de Medicina de Tráfego, confirmado), Assuncion Blanco (Associação Viva Pacaembu), e Hugo Pietrantonio (USP). Inscrições para o debate pelo e-mail andrea@isps.org.br.

22/2, terça-feira, Dia Mundial Sem Carro
Das 7h às 19h, “Vaga Viva” (esquina da R. PadreJoão Manoel e Av. Paulista, ao lado do Conjunto Nacional) – transformação de espaços de estacionamento na rua em local de convivência e práticas lúdicas. O espaço também será utilizado para uma oficina de montagem de “ando-móveis”, estruturas de madeira que lembram o formado de um automóvel mas que são movidas pelas pessoas.

A partir das 9h, marginal do Rio Tietê, na altura da Ponte das Bandeiras, “Praia do Tietê” – Atividade promovida pela Fundação SOS Mata Atlântica que pretende reunir 200 pessoas para encenar uma manhã de lazer, com caminhada, jogos e até espaço para banho de sol na "praia do Tietê" . O cenário contará com esteiras, cadeiras de praia e guarda-sol. O objetivo é imaginar uma cidade com rios limpos, revitalizados, atraentes para a população.

A partir das 9h, Av. Paulista com R. Augusta, Manifesto por um ar mais limpo e em favor da mobilidade urbana em São Paulo – com máscaras anti-poluição, participantes distribuirão um manifesto, inédito, assinado por diversas organizações, que alerta sobre os impactos da poluição veicular na saúd e pública e no aquecimento global e sobre a urgência de medidas que estimulem a mobilidade sustentável – ciclovias, transporte público acessível e de qualidade, prioridade ao pedestre.

Inscrições para as atividades pelo e-mail gabriela@isps.org.br.

Programação do Sesc:

SESC CARMO

PEGUE CARONA NESSA IDEIA
Evento Dia Mundial Sem Carro. Intervenções artísticas de uma trupe de palhaços que percorrerá diferentes ruas do centro de São Paulo, com distribuição de material informativo e ações interativas. Os atores terão a missão de sensibilizar as pessoas sobre a importância de mudar
e criar hábitos saudáveis, como caminhar e andar de bicicleta.
Roteiro:
SESC Carmo, Praça Poupatempo, Pça da Sé, Rua XV de Novembro, Pça Antonio Prado, Rua São Bento e Lgo São Bento, Líbero Badaró, Viaduto do Chá, R. 24 de Maio, Av. Ipiranga, Barão de Itapetininga, Viaduto do Chá, Praça Pratriarca, Rua Direita, Praça da Sé e Rua do Carmo. Com Os
Sustentáveis – Agentes de Transição. Grátis. 22/09. Terça, das 10h às 14h00.

SESC SANTANA

CONHECER SÃO PAULO PELO METRÔ
O Turismetrô é o fruto de uma parceria entre a São Paulo Turismo e o Metrô. Objetiva percorrer pontos turísticos e históricos da cidade de São Paulo com o transporte coletivo. Para isso foram elaborados roteiros diferentes, sendo que os percursos têm acompanhamento de guias. Inscrições na Central de Atendimento, de 28/08 a 11/09. Ponto de Encontro Entrada da Unidade às 12h. O bilhete de metrô não está incluso na inscrição. Dia 19/09 roteiro da Luz e 20/09 roteiro do Teatro Municipal. Grátis. 19/09, 20/09. Sabado e domingo, às 12h.

OS AUTOÓLICOS ANÔNIMOS
Intervenção artística que tem como objetivo sensibilizar a população para o uso consciente do automóvel e mostrar alternativas de transporte na cidade de São Paulo. Com Cia Dona Conceição. Vários espaços da unidade. Grátis.
22/09. Terça, das 18h às 20h30.

SESC ITAQUERA

NATUREZA E MEIO AMBIENTE
O caso da guarda que nada sabia e da ciclista que tudo ensinava
De maneira leve e engraçada uma ciclista argumenta com uma guarda de trânsito pouco consciente sobre a importância de se criar mais ciclovias e espaços públicos apropriados para os pedestres, a necessidade de se ter uma melhor malha de transporte público, e os benefícios da redução da poluição atmosférica e sonora. Intervenção nas alamedas da Unidade.
Dia 19/09, sábado, às 12h30, 14h e 15h30.

SESC IPIRANGA

CAMINHADA URBANA
Caminhada pelo bairro do Ipiranga, Parque da Independência e arredores, com percurso aproximado de 8km e 2 horas de duração. Com orientação dos técnicos do SESC. Para maiores de 16 anos. Inscrições na Central de Atendimento a partir de 01/09. Saída da frente da Unidade. Grátis. Dia
20/09. Domingo, às 9h30.
Exposição

SESC OSASCO

PEDALE NO TEMPO
Exposição que vai mostrar diversos modelos de bicicletas que rodaram entre as décadas de 1940 e 1990, e que ainda hoje permeiam o imaginário de muitas pessoas. Mostrando um pouco da
história e da contribuição que este veículo trouxe para o desenvolvimento da nossa sociedade, na área do lazer e transporte, e mais recentemente para a melhoria da qualidade do ar. Essa exposição faz parte do acervo da São Paulo Hawks. Na Praça de Eventos do Osasco Plaza Shopping, localizado na Rua Tenente Avelar Pires de Azevedo, Nº 81. Grátis.
De 22/09 a 12/10. De segunda a domingo, das 10h às 22h. Osasco.

PEDALANDO DO CALÇADÃO
Vivência físico-esportiva com triciclos que pretende estimular o uso da bicicleta como opção de transporte e atividade física. No Calçadão do Osasco Plaza Shopping, localizado na Rua Tenente Avelar Pires de Azevedo, Nº 81. Grátis.
22/09. Terça, das 11h às 17h.
Osasco

Veja índice de noticias do Dia Mundial Sem Carro

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Zero Hora, 30/08/09
http://zerohora.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a2635706.xml&template=3898.dwt&edition=13016&section=1012

30 de agosto de 2009 | N° 16079AlertaVoltar para a edição de hoje

ARTIGOS

Lembrando Chomsky, por Marcos Rolim*

Quando as pessoas dominam verdadeiramente um tema, se fazem compreender facilmente, porque falam com simplicidade. Simplicidade não é o mesmo que superficialidade. É possível dizer coisas importantes e profundas de forma clara, mesmo quando tratamos de assuntos bem complicados. Por outro lado, quando o falante começa a entrelaçar conceitos que remetem a outros conceitos; quando suas palavras formam círculos que impedem qualquer afirmação, o discurso vira um refúgio e, nesta metamorfose, o que se propõe não é mais um diálogo, mas uma encenação.

Um dos críticos deste mau uso das palavras é Noam Chomsky, um dos grandes intelectuais de nosso tempo, a quem devemos descobertas que revolucionaram a linguística. Chomsky nunca entendeu o significado de expressões como, por exemplo, “dialética”. Para ele, sempre que alguém lhe tentou explicar o sentido do conceito, ou dizia algo sem sentido, ou produzia uma verdade trivial. Brincando com suas próprias posições, Chomsky diz que talvez lhe falte um gene para entender palavras do tipo. No interessantíssimo Para Entender o Poder (Bertrand Brasil, 2005), o polêmico dissidente americano concluiu que, por trás de conceitos assim, há muita “falcatrua”. Chomsky tem sido, também, um dos mais importantes críticos do papel da imprensa, o que explica a razão pela qual não costuma ser muito “popular”. Uma de suas teses sustenta que a imprensa não vende jornais. O verdadeiro produto que a imprensa vende é seu público e quem compra este produto, é claro, são os anunciantes. Talvez, dito assim, soe muito simples. Mas o que há de verdadeiro nesta simplicidade é seu incômodo.

O jornalismo precisa ser simples, porque seu desafio é o de alcançar o maior número de pessoas, informando-as. O que não significa que precise ser superficial. Nas primeiras horas após a desocupação da fazenda Southall, tínhamos um sem-terra morto. Depois, com as informações de que a vítima não estava armada e que foi alvejada pelas costas, o que passamos a ter foi um assassinato. Ou, se a linguagem jurídica for preferível, um homicídio. O MST não “ganhou um mártir”, como se chegou a afirmar, porque a conclusão faz crer que o impróprio no disparo é seu efeito político, não o cadáver. Os relatos colhidos sobre o que foi feito pela Brigada Militar apontam não para uma “operação desastrada”, mas para a prática da tortura contra dezenas de pessoas. Não há desastre ou “erro” na tortura, há vergonha e crime. Simples assim. E se uma representante do Ministério Público anuncia que a operação policial demonstrou “profissionalismo”, então há um espanto que precisa ser explicado, para que o próprio Ministério Público não se confunda com o “Ministério da Verdade” de George Orwell e sua “novilíngua”. Na distopia proposta pelo livro 1984, um dos conceitos criados pela “novilíngua” era “duplipensar”. Com a expressão, o governo totalitário pretendia induzir os indivíduos a conviver simultaneamente com duas crenças opostas, aceitando ambas. Uma polícia que atua com profissionalismo não tortura, não humilha e não produz cadáveres. Não há “dialética” a ser invocada e não dizê-lo claramente é amparar a mão que puxou o gatilho. Simples assim. Ou, talvez, me falte um gene para compreender a covardia.

marcos@rolim.com.br

*Jornalista

terça-feira, 1 de setembro de 2009

http://www.cahiers-antispecistes.org/spip.php?article338

CA1 (outubro 1991)

Os Peixes: uma sensibilidade fora do alcance do pescador

Joan Dunayer

Traduzido do inglês por David Olivier
Tradução: Juliana Marques; revisão: Débora Vieira e Eliana Moser

Este artigo apareceu na revista americana Animal's Agenda (número de julho-agosto 1991), que deu-nos amavelmente a autorização para esta tradução.

Para certos nomes de peixes, não foi encontrado o equivalente em francês. Eles são, segundo o caso, deixados em inglês, ou traduzidos literalmente com o nome em inglês entre aspas.

Blackie, peixe vermelho da variedade kinguio , nadava com muita dificuldade devido a uma grave deformação. Big Red, peixe vermelho maior, notou sua angústia. Desde o instante em que Blackie foi colocado em seu aquário na loja de animais, Big Red começou a notá-lo. « Big Red supervisiona sem descanso seu amigo doente, levanta-o suavemente nas suas costas grandes e passeia com ele pelo aquário », conta um jornal sul-africano em 1985. Cada vez que a comida é colocada na superfície da água, Big Red carrega Blackie para que eles possam comer juntos. Faz um ano que Big Red demonstra sua « compaixão », segundo o proprietário da loja.

Por outro lado, os seres humanos demonstram ter bem menos compaixão para com os peixes. Trágica e ironicamente, os humanos não reconhecem a sensibilidade dos peixes, a qual, sob várias perspectivas, pode chegar a ultrapassar a dos humanos.

O mundo perceptível dos peixes

As orelhas internas dos peixes percebem todo o mundo aquático que os humanos não podem perceber sem ajuda de hidrofones. Como não possuem cordas vocais, os peixes « falam« comprimindo suas vesículas nadadoras, fazendo ranger seus dentes faríngeos. Ao esfregarem suas espinhas umas nas outras, eles produzem sons que podem variar de zumbidos e de barulhos a ganidos e soluços. Segundo descobertas de especialistas de biologia marinha, a « vocalização » dos peixes comunica estados como paquerar, dar sinal de alarme ou mostrar submissão, ao mesmo tempo em que comunicam a espécie, o tamanho e a identidade individual do « locutor » . O satinfin shiner macho, por exemplo, ronrona quando faz a corte e emite batidas surdas quando defende seu território. A linha lateral, órgão sensitivo que a maioria dos peixes possui de cada lado do corpo, forma uma série de filamentos sensíveis alinhados da cabeça ao rabo, detectando também as vibrações. Enquanto o peixe nada, este órgão sinaliza para o peixe os objetos próximos graças às vibrações que envia, autorizando assim a navegação e a localização precisa das presas no escuro.

Image

Morfologia de um peixe típico (téléolstéen). Segundo J. Nichools, no Guia da Fauna e da Flora litorâneas dos mares de Europa, Ed. Delachaux & Niestlé, Paris, 1979.

A sensibilidade dos peixes à luz é maior que a nossa. Muitos peixes das profundezas vêem na penumbra onde um gato não vê nada. As espécies de água pouco profundas têm uma visão em dois níveis ao nascer do sol; os cones da retina, sensíveis à cor, avançam e os bastonetes, sensíveis à luz fraca, retraem-se em profundidade; enquanto, ao por do sol, o processo se inverte. Durante a transição, numerosos peixes se beneficiam da percepção da luz ultravioleta, que é suficiente para lhes indicar a silhueta dos insetos na superfície da água. Uma luz viva repentina, vinda, por exemplo, de uma lanterna, surpreende e desorienta um peixe que tem visão adaptada para a noite. Isso pode provocar sua fuga, sua imobilidade ou mesmo sua submersão. A luz pode também destruir os bastonetes.

Na maioria dos peixes, as papilas gustativas se localizam não somente na boca e na garganta, mas também nos lábios e no focinho. Muitas das espécies que se alimentam no fundo têm receptores gustativos também na extensão das suas nadadeiras pélvicas ou nas barbatanas de seus queixos, que servem como línguas externas. Os peixes-gatos podem provar o alimento a certa distância graças a milhares de receptores gustativos.

Que sensibilidade os peixes têm ao odor? Os salmões podem percorrer milhares de quilômetros ao longo de suas migrações e, muitos anos mais tarde, reconhecer o odor do curso da água de origem. As enguias americanas detectam o álcool a uma concentração de uma fração de bilhão de gota em 90 m3 de água (o conteúdo de uma grande piscina). Através deste único odor, certos peixes podem determinar a espécie, o gênero, a receptividade sexual, ou a identidade individual de outro peixe.

Os peixes reagem fortemente ao fato de serem tocados. No momento de paquerar, eles freqüentemente se esfregam de maneira delicada uns nos outros. Os registros efetuados pelo Narragansett Marine Laboratory revelaram que o robin dos mares [sea robin] ronrona quando é acariciado. Ricardo Mandojana, fotógrafo submarino, ganha a amizade de um peixe-judeu inicialmente desconfiado coçando levemente a sua face. Com o passar dos meses, o peixe, aparentemente impaciente por ser acariciado, vem ao encontro do mergulhador durante seus passeios.

Numerosas espécies de peixes têm centenas de receptores elétricos na pele, o que lhes permite detectar a forma do campo que eles mesmos produzem. Um objeto menos condutor que a água, como uma rocha, forma uma sombra no campo; um objeto mais condutor, como uma presa, aparece como um ponto brilhante. A imagem elétrica que o peixe percebe indica o local, o tamanho, a velocidade e a direção do movimento do objeto. Um peixe elétrico pode também « ler« a carga produzida por um outro, a qual depende do tamanho, da espécie, da identidade individual e das intenções (que podem ser, por exemplo, o desafio ou a procura de um parceiro sexual) daquele que o produz. O peixe-faca listado macho afirma seu domínio por meio de uma série de impulsos rápidos; seu rival potencial se submete parando de « falar ».

Produzindo ou não o mesmo sinal elétrico, numerosos peixes são sensíveis ao campo elétrico que produz todo ser vivo e podem, assim, detectar uma presa escondida na areia ou no cascalho. Theodore Bullock, especialista dos sistemas nervosos, notou que certos tubarões podem perceber um campo elétrico equivalente ao que produz uma pilha de 1,5V a 1500 km.

A capacidade que eles têm de sofrer

De acordo com outras sensibilidades, não há duvida sobre a capacidade dos peixes de sentir stress e dor. Quando são perseguidos, capturados, ou ameaçados de todas as maneiras, eles reagem como os humanos face ao stress pelo aumento da sua freqüência cardíaca, do seu ritmo respiratório e por uma descarga hormonal de adrenalina. O prolongamento de condições adversas, como grande confusão ou a poluição, ameaça lhes fazer sofrer de deficiência imunitária e de lesões orgânicas internas. Tanto pela bioquímica como pela estrutura, seu sistema nervoso central se parece intimamente com o nosso. Nos vertebrados, as terminações nervosas livres registram a dor; os peixes a possuem em abundância. Seu sistema nervoso produz também as encefalinas e as endorfinas, substâncias análogas aos opiáceos que possuem um papel contra a dor nos humanos. Quando estão machucados, os peixes se contorcem, ofegam, e exibem outros sinais de dor.

Fica lógico que os peixes sentem medo, e este tem uma função na aquisição do comportamento de fuga. Se um vairão for atacado uma vez por um brochet, ou se vir outro ser atacado, o odor de um brochet é suficiente para fazê-lo fugir. Os peixes que foram atacados por jovens brochets fogem assim que escutam o rangido de dentes desses últimos. O pesquisador R.O. Anderson mostrou que os Percas de boca grande aprendem a evitar rapidamente os anzóis simplesmente ao verem outros serem capturados. Centenas, talvez milhares de experiências foram feitas durante as quais os peixes foram levados a cumprir tarefas dentro do objetivo de evitar choques elétricos.

Numerosos cientistas reconheceram ter induzido os peixes ao medo. Entre as « observações do comportamento motivado pelo medo nos peixes vermelhos » feitos pelo psiquiatra Quentin Regestein, encontrou-se: « Um peixe assustado pode se enlaçar avançando ou fugir ou se agitar no mesmo lugar, ou ficar simplesmente mole se ele não suporta a situação ».

Os peixes gritam tanto de dor quanto de medo. Segundo Michael Fine, biólogo marinho, a maior parte dos peixes que produz sons « vocalizam » quando tocados, quando pegos, ou quando perseguidos. Numa série de experiências, William Tavolga fez murmurar peixes-sapos infligindo-lhes choques elétricos. Começaram também a murmurar logo que viam eletrodos.

Os peixes « animais de estimação »

Mesmo quando não há a crueldade da experimentação animal, a captura dos peixes negligencia as suas necessidades mais fundamentais. Nervosos e frágeis, eles estão mal adaptados a uma vida reclusa em aquário. Todavia, só nos Estados Unidos, centenas de milhões de peixes estão aprisionados.

Os peixes são mais sensíveis à temperatura do que qualquer outro animal de sangue quente. Uma variação brusca de apenas alguns graus pode matar um peixe vermelho. No entanto, alguns são colocados em pequenos reservatórios onde a temperatura pode variar rapidamente.

Os peixes de aquário não possuem nenhuma possibilidade de escapar das substancias tóxicas que penetram em sua água. Numerosos poluentes domésticos podem lhes prejudicar, entre eles a fumaça do cigarro, os vapores de pintura e as gotas de vaporizadores. Dentro de um bocal ou reservatório, o amoníaco que eles mesmos excretam pode se acumular e chegar a um nível tóxico. O próprio cloro em pequena quantidade pode, como o amoníaco, induzir a dificuldades respiratórias e espasmos nervosos. O nível de cloro da água da torneira pode facilmente ser fatal.

Os peixes de aquário são bombardeados em permanência por cenas e barulhos dos humanos. O simples fato de acender a luz num quarto escuro pode assustá-los ao ponto de lançarem-se contra o vidro, e se matarem. As vibrações vindas da televisão, do radio, ou de uma porta que bate podem também os assustar e machucar. Em You and Your Aquarium, Dick Mills previne que « qualquer choque ou batida no vidro do aquário pode facilmente chocar ou estressar os peixes ». Um pesquisador, H.H.Reichenbach- Klinke, descobriu que peixes freqüentemente expostos a musica forte desenvolvem lesões mortais do fígado.

Os peixes de aquário são deixados à mercê da agressão artificial, mas são privados da natural. Eles não têm necessidade de atividades como a procura de alimento através da vida diversificada dos recifes de corais. Ao contrário, eles percorrem as mesmas dezenas e centenas de litros, e aceitam passivamente dia após dia a mesma comida comprada pronta. Segundo Mills, os peixes de aquário sofrem seguidamente de tédio.

Os peixes vermelhos e outros peixes sociais necessitam da companhia de membros de sua espécie, sem a qual, comenta ainda Mills, « podem perecer ». Quando perdem um companheiro, observamos nos peixes sociais os sinais de depressão, tal como letargia, palidez ou nadadeiras moles. O zoólogo George Romanes comenta em Animal Intelligence o seguinte incidente: quando um proprietário de aquário se desfez de um dos seus dois ruff, o que ficou parou de comer durante três semanas até o dia em que trouxeram seu companheiro.

O mal que os aquarófilos infligem aos peixes ultrapassa amplamente o aquário. Inúmeros são os peixes que morrem antes de chegarem ao varejista, durante o transporte desde o local de captura, ou desde a « fazenda de peixes » (onde nascem atualmente 80% dos peixes ditos « ornamentais » dos Estados Unidos). Somente a captura mata ou machuca milhões. Eles são imobilizados com o auxilio de anestésicos, de dinamite ou de cianeto, depois capturados com a mão ou redes. William McLarney, biólogo de pesca, observou uma captura com bomba de cianeto:

Uma dúzia de peixes-esquilos vermelhos rapidamente foge em bando do seu habitat de coral a 8 metros de profundidade e se lança, sufocando e trepidando, até a superfície. Seu impulso os leva a até trinta centímetros acima da superfície, de onde caem com pequenos ruídos secos, e ao final bóiam, cansados, girando fracos em círculos. Sobre eles, um Mero de três libras tosse violentamente, as brânquias ardendo. Ele tenta nadar mas é derrubado, depois bóia sem ruído como uma bóia sinistra.

Nesse meio tempo, no fundo, peixes mais « comuns » para interessarem aos clientes « entram em convulsão ou escorregam sem movimento ».

A pesca comercial

A pesca comercial também dizima os peixes, matando milhares a cada ano. Em geral, para eles, a morte não é rápida nem indolor.

Image

Rede giratória e envolvente. A parte inferior do fio é fechada no meio de uma corda deslizante.

Na pesca de arrastão, o barco fecha, com uma rede, um círculo em torno de um cardume, depois iça, suspende o cardume e o joga dentro da salmoura líquida que é mantida a O grau Celsius. Aqueles que não morrem esmagados ou estrangulados são vitimas do choque térmico. Este método, empregado por pescadores que caçam os atuns de nadadeiras amarelas, provoca uma tempestade de protestos a favor dos golfinhos que nadam por baixo dos atuns e se enroscam nas redes com eles. Mas poucas vozes se elevam contra a morte dos próprios atuns. E os atuns são também animais sensíveis às vibrações, portanto é claro que eles também ficam aterrorizados e feridos pelos barcos motorizados e pelas explosões submarinas que levam os golfinhos a se agruparem em um lugar. A onda de pressão de uma detonação submarina pode romper a vesícula nadadora de um peixe.

Image

Pesca com rede em forma de cesto. Uma rede precede a borda inferior do fio e raspa o fundo do mar para desalojar os animais.

Na pesca com rede, um barco se movimenta carregando atrás dele, na água, uma enorme rede. Todos os peixes que entram são empurrados pelo movimento de tração em direção à sua extremidade que possui a forma de um saco rendado. Durante uma ou mesmo quatro horas, os peixes capturados são puxados e pressionados uns contra os outros, juntamente com outros fragmentos e seixos que a rede colhe do fundo. Em Distant Water: The fate of the North Atlantic Fisherman, William Warner fala de uma captura: « o atrito dos peixes uns contra os outros devido à agitação e a compressão prolongada da rede lhes enfraquece as escamas incisivas ». « A fricção, de fato, deixa-os em carne viva ».

A descompressão à qual são submetidos torna-se insuportável quando são forçados a subir depois de certa profundidade. A queda da pressão provoca uma dilatação do gás encapsulado em sua vesícula nadadora, que não pode ser compensada rapidamente pela absorção da circulação sanguínea. Em seguida, a pressão interna faz com que a vesícula nadadora arrebente, ou os olhos saiam da órbita, ou o esôfago e estomago saiam pela boca. « Muitos dentre eles têm buracos onde deveriam estar os olhos », comenta Warner numa de suas observações sobre um barco pesqueiro. Em outro momento, ele nota que, dentro da rede, há « uma grande espuma de bolhas... provindas de milhares de vesículas nadadoras rompidas »1 ».

Os peixes relativamente pequenos, tais com as solhas espinhosas, são comumente esparramados sobre a pilha de gelo; a maioria morre sufocada ou esmagada pelas camadas seguintes de outros peixes. Os peixes maiores tais como os hadoques ou bacalhaus têm suas vísceras arrancadas imediatamente. William MacLeish descreve o método de triagem que ele viu ser praticado: a equipe de pescadores esfacela os peixes com bastões afiados, « jogando de um lado os bacalhaus, de outro lado os hadoques, lá ainda os rabos-amarelos » [Yellowtail] . Em seguida, os peixes não desejados (« lixo »), que representam muitas vezes a maioria da captura, são jogados sobre a margem, muitas vezes com um tridente (ancinho).

Somente numa tarde, os pescadores podem jogar no mar até 60000 km de redes; dentro das águas profundas do Pacifico, usam-se sobretudo redes móveis, mas pode-se também usar redes amarradas dentro das águas costeiras. Trata-se geralmente de redes de plástico que possuem bóias em uma de suas pontas e pesos na outra ponta. Essas bóias balançam como cortinas na superfície, geralmente até uma profundidade de 10 m. Além de provocarem a morte não intencional de mais de um milhão de mamíferos, de tartarugas e aves a cada ano, estas redes infligem um sofrimento enorme aos peixes.

Eles não vêem as redes e nadam diretamente para elas. Se são muito grandes para atravessá-las, os peixes geralmente ficam com a cabeça presa numa das malhas. Eles tentam então recuar, mas a malha lhes prende pelos opérculos das brânquias ou pelas nadadeiras. Muitos destes peixes vão então morrer sufocados. Outros lutam desesperadamente nas malhas cortantes e seguidamente sangram e morrem vazios de seu sangue, quer consigam ou não se libertar. Muitos dos pescadores não retiram as redes todos os dias,e a morte pode levar dias. Em Sports Illustrated (16 de maio 1988), o jornalista Clive Gammom descreve os bacalhaus pegos depois de dois dias. Muitos dentre eles estavam « sem olhos, sem nadadeiras, sem escamas »; numerosos outros foram devorados pelas pulgas do mar. Os peixes imobilizados são uma presa sem defesa (os predadores que eles atraem ficam seguidamente presos também às redes). Quando uma rede é erguida, os peixes são extraídos com gancho.

Certos pescadores comerciais pegam ainda os peixes maiores e preciosos (os peixes-espadas, os atuns e tubarões) com arpão, ou com anzóis individualmente. Mas comumente eles os prendem por longas linhas flutuantes. Este método, igualmente empregado para os peixes menores, consiste em desenrolar uma grande quantidade de fio (até 50 km) contendo centenas ou milhares de anzóis munidos de iscas.

A pesca de lazer

Em torno de 40 milhões de habitantes dos Estados Unidos – 16% - maltratam os peixes por « esporte ». Muitos adeptos da pesca de lazer afirmam que as vitimas não sofrem. Todos os dados conhecidos indicam o contrário.

O pesquisador John Verheijen e seus colaboradores estudaram a reação das carpas ao anzol num fio. Assim que são presas, as carpas agitam a cabeça, cospem como se tentassem cuspir a comida, pulam pra frente e mergulham. Obtemos a mesma reação inicial administrando-lhes choques elétricos dentro da boca. Quando são presas e mantidas numa linha estendida durante o período de alguns minutos, elas cospem o gás de sua vesícula nadadora; assim que a linha é solta, elas entram na água. Fazem exatamente o mesmo quando submetidas a um choque elétrico intenso e prolongado. De uma maneira incrível, elas reagem do mesmo modo quando as assustamos lhes prendendo num espaço reduzido ou lhes fazendo sentir o cheiro de um membro ferido de sua espécie. Os pesquisadores concluíram que o anzol suspenso num fio provoca certa combinação de terror e de dor.

Image

Na pesca a linha, o contraste é grande entre a aparência de um lado, quer dizer o ar despreocupado e calmo do pescador (acima), e a realidade mortal da violência cometida (abaixo). As duas imagens foram retiradas de A Pesca, ed. Larousse, 1968.

Durante a luta do peixe preso ao anzol, seu glicogênio muscular (forma de estoque de glicose) é consumido e exterminado, assim como o acido láctico se acumula rapidamente em seu sangue. Em alguns minutos, a metade das reservas de glicogênio de uma truta arco-íris é desgastada pelo esforço violento que ela fornece. No número de maio de 1990 do Field and Stream, o cronista Bob Stearns reconhece que o acido láctico pode « imobilizar » um peixe « de modo bem mais rápido e intenso que as câimbras e outras dores musculares que nós, humanos, sentimos quando exercitamos demais os músculos ». Quanto mais o peixe luta, maior é a acumulação de acido láctico. Porém, os pescadores sentem prazer em « trabalhar » duro durante a pesca. No numero de julho de 1990, Stearns exalta uma « pequena esposa de pescador » que pesca um peixe espada durante mais ou menos cinco horas: « Cada vez que o peixe ficava lento, ela aproveitava a ocasião: puxando-lhe, pressionando e forçando-o a gastar suas próprias reservas de energia, não lhe dando um único instante de descanso ». Antes de ser tirado da água, muitos peixes morrem de cansaço.

Image

Diversas variedades de anzóis

Para muito outros, o pior dos sofrimentos ainda está por vir. Tipicamente, o pescador puxa os peixes médios e grandes para dentro do barco fisgando-os com a ajuda de um arpão. Às vezes eles são esfolados vivos. Muitos pescadores têm o habito de fisgar as presas ainda vivas numa corda ou uma rede que eles deixam por horas na água. Uma corda é fincada em cada peixe, geralmente pela boca e saindo por uma abertura das brânquias. Uma rede, munida de fechos que parecem enormes alfinetes, serve para emparelhar os peixes, geralmente através da mandíbula. A maioria dos peixes da pesca de lazer morre sufocada. Mesmo fora da água a morte pode ser lenta. Na edição de outubro de 1980 de Field and Stream, Ken Schulz descreve uma Perca depois de uma hora fora da água: ela tinha as nadadeiras e brânquias vermelhas e « continuava a sufocar ».

A pesca em que o pescador libera a presa inflige, no mínimo, terror, dor e uma incapacidade temporária ou seguida, permanente ou fatal. O editor adjunto de Field and Stream, Jim Bashline, admite em um artigo do número de maio de 1990 que é freqüente ver o peixe « se debater violentamente quando o pescador puxa o anzol, que ele foge e bate brutalmente no fundo do barco ou do solo rochoso ». As quedas, a manipulação dos fios ou a mão e outras agressões ainda machucam a pele superficial delicada e transparente do peixe. Esta camada mucosa externa o protege contra infecções e protege os tecidos subjacentes contra a entrada ou saída excessiva de água; todas as condições que podem ser fatais. Experiências que também foram feitas confirmam que os peixes podem morrer de envenenamento por causa do próprio ácido lático, e isso muitas horas depois de estarem exaustos, e terem ficado muito tempo completamente paralisados. O próprio anzol é sempre uma fonte de machucados. O peixe que tem a boca gravemente dilacerada pode ficar incapaz de se alimentar. Muitos peixes são ainda soltos com o anzol preso nas brânquias ou nos órgãos internos, no caso de o terem engolido.

A pesca constitui também uma tortura infligida a aqueles que são empregados como isca. Os pequenos peixes, como os Vairões (ou Tanictis) utilizados com este fim, são geralmente presos pelas costas, lábios, ou mesmo pelos olhos. Já que as feridas tendem a atrair as espécies predatórias que são procuradas, certos pescadores infligem ainda outras às suas iscas, cortando as nadadeiras ou quebrando-lhes as costas.

A administração dos peixes para a pesca de lazer

A fim de assegurar a estabilidade do número de presas, os criadores de alevinos nos Estados Unidos soltam, por ano, nos estuários das águas centenas de milhões de peixes, principalmente salmões e trutas. Ted Williams, que se descreve ele mesmo « um antigo cão de guarda dos administradores« , qualificou as criações de peixes de « lixos genéticos ». Num artigo publicado em setembro de 1987 no Audubon, ele escreve: « Depois de anos de reprodução consangüínea, as trutas dos criadores tendem a ser deformadas. Os opérculos branquiais não fecham mais, as mandíbulas são tortas, as caudas são esmagadas ». Certas más mutações são cultivadas intencionalmente; assim, a agência governamental de gestão da fauna selvagem do Estado de Utah tem produzido massivamente albinos, sensíveis à luz, para servirem de presas fáceis de serem capturadas.

Williams deplora as condições de criação de trutas dos criadores e fala de « tanques de concreto infectos e superlotados, que eliminam as escamas e as nadadeiras dos peixes ». Ele adiciona que os peixes são despreparados para a vida selvagem. Mesmo se as trutas fogem quando sentem um movimento acima delas, as que vêm dos criadouros ficam lá, esperando para serem alimentadas (os pescadores não reclamam). Williams, ele mesmo apaixonado pela pesca de linha, abre a barriga de uma truta de um criadouro, e encontra numerosos tocos de cigarro que o peixe, habituado a comer granulados, tinha engolido.

Mark Sosin, adepto da pesca de lazer e John Clarke, biólogo de pesca, escreveram um livro para os pescadores de linha, Through the Fish's Eye: An Angler's Guide to Gamefish Behaviour (« Através do olho do peixe: um guia sobre o comportamento dos peixes ») , no qual eles ingenuamente definem como objetivo da administração da criação dos peixes: « fornecer o melhor peixe para o prazer do pescador ». Com o objetivo de reduzir a população dos pequenos peixes que não lhes interessam e aumentar a claridade da água, os administradores esvaziam parcialmente com freqüência certos lagos e tanques, deixando assim as espécies não desejadas sofrer da falta de alimento, da falta da cobertura de água, de espaço para evitar os predadores. Friamente, Sosin e Clarke aconselham: « Quando um lago ou tanque fica fortemente povoado de espécies não desejados, a melhor solução pode ser aniquilar todos os peixes e recomeçar de novo. Podemos geralmente secar o lago, ou envenenar todos os peixes (...) Uma vez todos os peixes mortos, a bacia pode ser cheia de novo e povoada segundo a combinação desejada de espécies predatórias e presas ». A combinação desejada é, deve-se compreender, aquela que desejam os pescadores de linha e « administradores da fauna » cujos salários vêm em grande parte das licenças de pesca.

A maioria dos humanos sente pouca simpatia pelos peixes. Porque os enxergam como uma massa, ou como idênticos através de espécie, as pessoas negligenciam facilmente os peixes como indivíduos. Porque o mundo deles é um mundo aquático cujos meios de comunicação escapam aos nossos sentidos, porque sua aparência física difere tanto da nossa... Por todas essas razões, muitos humanos não lhes reconhecem a sensibilidade. O resultado é que o mau trato destes animais é socialmente aceitável. À medida que o número de pessoas conscientes acreditar na sensibilidade dos peixes, estes começarão a receber a compaixão e o respeito que merecem.

No domínio dos sentimentos, Big Red tem muito a nos ensinar.


Notes :

1.

« Os peixes que são largamente consumidos– atuns, arengues e bacalhaus pequenos– são todos pescados entre a superfície e em torno de 800metros de profundidade. Mas a concorrência e a raridade de bancos obrigam os barcos pesqueiros a mergulharem os fios cada vez mais profundamente. Resultado: os peixes que até agora desconhecíamos chegam ao mercado. Como o Peixe rato (ou Peixe prego), que vive a mais de 1400 metros de profundidade.
« Para responder às necessidades dos novos pescadores, uma sonda acaba de ser colocada por Micrel, uma sociedade da Bretanha, em colaboração com o Ifremer (Instituto francês de pesquisa e exploração do mar) ».

Libération, 16 de outubro de 1991; NdT.

Trance

http://fr.wikipedia.org/wiki/Trance
L'esprit de cette musique vient du fait que la musique et la danse peuvent altérer la perception sensorielle de l'auditeur et le transporter dans un état d'extase hypnotique et méditative

segunda-feira, 31 de agosto de 2009


http://www.atea.org.br/

2. Sou feliz sem crer em nenhum deus.

3. Você precisa de um deus para ser bom? Nós não.

4. Imagem ou texto mostrando ateus famosos. Texto: você sabe qual deles é ateu? TODOS. Subtítulo: Somos milhões no Brasil, centenas de milhões no mundo. Sugestões de nomes: Camila Pitanga, Angelina Jolie, Paulo Autran, Dercy Gonçalves, Charlie Chaplin, Daniel Radcliffe, José Saramago, Glória Maria, Drauzio Varella, Cássia Eller, Jodie Foster, Jorge Amado, Walmor Chagas.

5. Imagens de crucifixos na Câmara, Senado, Supremo e Planalto, "Deus seja louvado" nas cédulas, "Sorocaba é do senhor Jesus" e os dizeres "ateus também são cidadãos". Subtítulo: Queremos igualdade. Merecemos respeito.

6. A fé não dá respostas. Ela só impede as perguntas.

7. Sorria! O inferno não existe.

8. Você é quase tão ateu quanto nós. Quando você entender por que não acredita em todos os outros deuses, saberá por que não acreditamos no seu.

9. Duas mãos trabalhando fazem mais do que mil em oração.



domingo, 2 de agosto de 2009

Folha de São Paulo, 02/08/09
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc0208200914.htm
Tutor de cabo Anselmo é acusado de tortura

Associação de perseguidos políticos afirma que há depoimentos de pessoas torturadas no Dops por delegado, que nega acusações

Carlos Alberto Augusto diz que atuou somente como informante na perseguição a militantes e que se sente preparado para novo golpe

LUCAS FERRAZ
EM SÃO PAULO

O delegado Carlos Alberto Augusto, do 12º distrito de São Paulo, é suspeito de comandar sessões de tortura no Dops (Departamento de Ordem Política e Social) da capital na ditadura militar (1964-85). Amigo e tutor do cabo Anselmo, ambos participaram como informantes de um dos mais violentos episódios do regime.
Carlos Alberto trabalhou de janeiro de 1970 a 1977 no Dops, onde respondia diretamente ao chefe do órgão, Sérgio Paranhos Fleury. De acordo com Ivan Seixas, diretor do Fórum dos Ex-Presos e Perseguidos Políticos de São Paulo, há vários testemunhos de pessoas torturadas por ele nas dependências do Dops. "Ele era conhecido lá como Carlinhos Metralha. Eu mesmo o via andando sempre com uma metralhadora pendurada no ombro."
Ivan apontou Carlos Alberto como torturador em audiência recente no Ministério Público Federal de SP. O delegado nega.
"Isso é mentira. Eu era agente de informação, não trabalhava em ações", afirma. "Apenas cumpri meu dever de defender o país do comunismo. Não me arrependo de nada."
Aos 66 anos, Carlos Alberto ainda parece viver nos anos de chumbo. Diz estar pronto para servir as Forças Armadas caso seja necessário um novo golpe.
"O país que eu desejo não é este que está aí. Esses caras do governo [Lula] são todos sanguinários. Tudo comunista bandido e covarde. Estou à disposição dos militares na hora em que eles precisarem de novo."
O delegado considera Anselmo, tido como um dos maiores delatores da ditadura, um injustiçado. Em sua conta, só no Dops paulista havia mais de 50 informantes da repressão que eram de organizações de esquerda. "Havia de tudo. De padres a médico. No trabalho que fazia, tinha acesso a alguns."
José Anselmo dos Santos, o líder dos marinheiros que detonou a queda do governo João Goulart, em 64, e que depois virou informante da repressão, tenta 45 anos depois reaver seus documentos originais. Na última quinta, ele fez perícia na Justiça Federal de SP para obter de novo carteira de identidade, CPF e título eleitoral.

Massacre
A última ação de Anselmo ocorreu junto com Carlos Alberto. No episódio, conhecido como massacre de São Bento, foram assassinados seis militantes da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária). No livro "A Ditadura Escancarada", o jornalista Elio Gaspari descreveu a ação como uma "das maiores e mais cruéis chacinas da ditadura".
O ex-marujo tinha vida dupla: fingia militar na organização, mas entregava companheiros. Carlos Alberto também se infiltrou na VPR por três anos.
Na época, a versão oficial era de que houve tiroteio quando os oficiais cercaram o local.
Mas os seis da VPR foram capturados em pelo menos quatro lugares diferentes. Os corpos, encontrados na chácara. "Os mortos da VPR teriam disparado dezoito tiros, sem acertar um só. Receberam 26, catorze na cabeça", escreveu Gaspari.


Colaborou ANDRÉ CAMARANTE , da Reportagem Local

terça-feira, 30 de junho de 2009

vai uma carninha aí?

http://zerohora.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default.jsp?uf=1&local=1§ion=Geral&newsID=a2563675.xml
Geral | 30/06/2009 | 20h13min

Carne apreendida em Caçapava do Sul era de cachorro
Delegada de polícia civil anunciou laudo extraoficial nesta terça-feira
Bianca Backes | bianca.backes@diariosm.com.br

Seria mesmo de cachorro a carne vendida para consumo por um usuário de crack, em Caçapava do Sul, na Região Central, há cerca de um mês. A delegada da cidade, Fabiane Bittencourt, divulgou nesta terça-feira que, extraoficialmente, foi informada sobre resultado do exame realizado em um pedaço de carne apreendido no bairro Promorar.

De acordo com peritos que conversaram com ela, a peça, comercializada como se fosse de porco ou de ovelha, é de cachorro. O suspeito de matar cães e vender a carne foi identificado, mas ainda não foi localizado pela Polícia Civil.

domingo, 21 de junho de 2009

Ética não precisa

Não costumo escrever nada aqui de próprio punho. Normalmente trago matérias que considero interessantes. No entanto, dessa vez não pude resistir.

Televisão quebrada em casa. Nem estou fazendo questão de consertar. Às vezes conecto em alguns canais de tv aberta e fechada via internet para ver o que passa. Ontem, sábado, 20 de junho, tive o desprazer de conectar na TV Record durante a noite. Estava passando o programa "A Fazenda", mais um reality show, que, pelo que soube, recebeu algumas críticas por ter em seu elenco apenas celebridades de médio escalão. Não sei bem o que diferencia o médio escalão dos demais e na verdade nem faço questão de saber. Aliás, celebridade não tem função nenhuma, tem sim é uma desfunção. Mas esse não é o assunto agora.

O programa "A Fazenda" apresentou diversas discussões com agressividade extrema e violência verbal extremada. Fiquei chocado. Hoje pela manhã acordei e fui pesquisar um pouco sobre o tal programa no youtube. Fiz uma pesquisa com os seguintes termos:

"a fazenda" briga

Encontrei 256 resultados! Fui olhar alguns deles, por exemplo:
A Fazenda - QUASE AGRESSÃO DO MIRO: Modelo parte para cima do Theo. Parte 2.

Cenas de agressividade, violência, preconceito, desrespeito.
E a cara do apresentador Britto Jr? Piora ainda mais a situação. Eu me sentiria tão ruim de apresentar um programa desse nível ...


A Fazenda - Theo e Fábio Arruda batem boca







Em quatro partes. Cenas de agressividade, discussão e preconceito.


A Fazenda Briga Entre Dado x Theo Round 2

Violência e agressividade.


A Fazenda | Luciele se descontrola com Theo

Sem palavras.



Absurdo! Impressionante como uma emissora de televisão pensa que isso é um programa de interesse nacional. Televisão, assim como os demais meios de comunicaçao, é uma concessão pública, e deve atender ao interesse público. É impossível pensar que exista interesse público em um programa que transmita essas imagens.

Diante disso encaminhei denúncias ao Ministério Público Federal e à Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados pedindo providências.

O pior de tudo foi que depois de fazer isso fui pesquisar algumas outras coisas ainda sobre o assunto. Tudo ficou mais claro.
- pesquisar no orkut se havia alguma comunidade pedindo mais ética na tv. Resultado da pesquisa: as duas comunidades com maior número de membros são:
"Ética? Eu Quero é Bunda na TV!"
"Ética na TV é o kct!!!"
- fui pesquisar as informações sobre classificação indicativa do Ministério da Justiça, sem querer apertei o enter após escrever apenas "classificação", e vieram as páginas de futebol.

Conclusão: o país é o Brasil da bunda e do futebol, ética não precisa! Viva a baixaria e a ignorância!

Mas registre-se: a minha parte eu fiz e vou continuar fazendo...

segunda-feira, 25 de maio de 2009

"Quase tão ridículo quanto negar uma verdade evidente é realizar um grande esforço para defendê-la. E nenhuma verdade me parece mais evidente que a de que os animais são dotados de pensamento e razão, assim como os homens. Os argumentos neste caso são tão óbvios que não escapam nem aos mais estúpidos e ignorantes."
(HUME, David. Tratado da natureza humana. São Paulo: UNESP, 2001. p. 209)

domingo, 24 de maio de 2009

http://www1.folha.uol.com.br/folha/equilibrio/noticias/ult263u570731.shtml
24/05/2009 - 13h36

Brasileiros são os que mais gastam em cosméticos na América do Sul, diz pesquisa

Publicidade

da Efe, em Santiago do Chile

O Brasil é o país da América do Sul que mais consome cosméticos e remédios que podem ser comprados sem receita, segundo um estudo da empresa de consultoria Euromonitor e do jornal chileno "Estrategia".

No caso dos cosméticos, a despesa anual média por habitante no Brasil é de US$ 116,20; no Chile, é de US$ 96,50, enquanto que na Argentina, chega a US$ 74,90.

Já em relação aos medicamentos sem receita, o brasileiro gasta anualmente em média US$ 27,20 nesse tipo de produto, mais do que o chileno (US$ 20,80) e que o argentino (US$ 19,30).

O Brasil também gasta mais em bebidas quentes (café, chás) -- US$ 31 em média por habitante ao ano, mais que os US$ 24,90 na Argentina, o segundo país com mais despesas nesse quesito.

Além do Brasil, o estudo inclui dados de Argentina, Chile, Colômbia e Peru.

Os argentinos lideram o consumo anual médio de alimentos frescos (US$ 429 por habitante), seguidos dos brasileiros (US$ 380,20).

O mesmo acontece em relação às despesas com eletrodomésticos, nas quais os vizinhos gastam US$ 103,10 por habitante contra US$ 51,30 no Brasil.

Os chilenos, por sua vez, são os que mais gastam com bebidas alcoólicas - US$ 233,90 contra US$ 226,20 no Brasil - e com tabaco e derivados - US$ 91,40, logo à frente dos argentinos, com US$ 55,10, e dos brasileiros, com US$ 41.

http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u570697.shtml
24/05/2009 - 10h53

Aversão a dar carona é maior no Itaim Bibi

Publicidade

RICARDO SANGIOVANNI
da Folha de S.Paulo

Quem mora no Itaim Bibi considera os engarrafamentos o principal problema da região onde vive. Também, pudera: o distrito nobre da zona oeste de São Paulo, que atrai a maior quantidade de viagens de carro por dia, atrai também os motoristas com hábitos mais individualistas da capital paulista.

De cada cinco motoristas que têm o Itaim Bibi como destino diariamente (o que inclui quem mora no distrito), só um leva passageiro. É quase o dobro da média da cidade, que é de um motorista com acompanhante a cada dois carros, segundo a pesquisa Origem/Destino do Metrô, espécie de censo dos transportes.

Apontado por especialistas como agravante do caos do trânsito, o uso do automóvel quase sempre com ocupação mínima (chamado de "irracional" por alguns, já que o compartilhamento ajudaria a tirar carros da rua e melhorar o trânsito e a qualidade do ar) tem como protagonistas desde motoristas que não dão carona por convicção até quem nunca se ofereceu para levar o vizinho ou o colega simplesmente porque ignora para onde ele vai.

Os outros nove distritos que mais atraem carros por dia também fazem a média de caronas da cidade comer poeira.

Junto com o Itaim, Pinheiros, Jardim Paulista e Perdizes, na zona oeste, e Vila Mariana, Saúde, Moema, e Santo Amaro, na região sul, formam a "mancha" do individualismo no trânsito no mapa da cidade.

Os "ingredientes" para atrair carros são mais ou menos os mesmos: são de classe média alta, ficam na região central, têm alta concentração de carros por família e grande densidade de prédios altos.

Nesses distritos a quantidade de viagens atraídas por dia supera 100 mil e, em geral, só um a cada três motoristas leva passageiro. A exceção é Perdizes, que com Sacomã (sul) e Santana (único da zona norte) completa o "top 10" do individualismo --a média nos três é de uma carona a cada dois carros.

Conversa fiada

"Dar carona para ajudar a melhorar o trânsito é conversa fiada. É como vestir camisa branca para protestar contra a violência: não resolve nada", diz o comerciante Gilberto Giusepone, 61, que trabalha no Itaim Bibi, onde chega de carro sozinho todos os dias. "O que ajuda a diminuir o trânsito é mais metrô, linhas de ônibus mais inteligentes e menos ruas usadas como estacionamento."

Dona de um consultório no mesmo centro empresarial onde Giusepone trabalha, a médica Regina Messina, 38, até costuma dar carona. Mas só para os amiguinhos de escola de seus dois filhos de 9 e 7 anos --o restante das atividades ela faz "sozinha mesmo".

"Tenho carro e tenho onde estacionar. Então, nem cogito [pegar carona]", diz ela, que mora nos Jardins (oeste), a 4,5 km (a 12 minutos de carro) do trabalho. Na casa, são dois carros: um dela, outro do marido.

O centro empresarial onde a médica e o comerciante trabalham recebe 2.000 carros por dia. Em 30 minutos, na manhã de quarta-feira, de 36 veículos que passaram por uma das entradas do estacionamento, só cinco levavam passageiros.

Regina diz que não se incomodaria em levar um vizinho ou um colega de trabalho se os locais onde mora e frequenta criassem algum projeto de incentivo à carona solidária -algo que, porém, diz jamais ter visto. Ir de carona ou de transporte público? Jamais. "A comodidade [de andar de carro] é muito atraente", confessa.